Arquivo do mês: junho 2012

Maresia.

Tenho os sentimentos antigos
com seus enfeites e rachaduras.
Eram pra ter ido embora
desde que voltei de Ipanema,
mas se misturaram com a areia das minhas roupas
e de vez em quando acho algum grãozinho perdido por aí.
Piso neles, entram nas minhas unhas.

Uma vez me disseram
que eu devia ir jogando todos eles
pouco a pouco pro papel
– devagar, como um castelo de areia na praia que vai
se desmanchando pouco a pouco com o vento. –

Quem sabe assim você para de ter sonhos ruins à noite.”
– foi o que me disseram.
Mas alguns grãozinhos estão tão fundos,
incomodam
tão

dentro
que eu fico com medo de cutucá-los
pois eternizá-los no papel
doeria da mesma forma.

 

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Também não existe salvação em São Paulo

Oh, pedaço de mim
Oh, metade amputada de mim
Leva o que há de ti
Que a saudade dói latejada
É assim como uma fisgada
No membro que já perdi

– Chico Buarque.

Segunda de madrugada, e a única vida na Rua Augusta eram os postes acessos e a chuva muito forte. Um dos motivos porque sempre achei as pessoas dessa cidade estranhas – elas preferem admirar a chuva através da janela de um quarto, bebendo suas monótonas xícaras de café e lendo alguma coisa supostamente boa. Eram nesses momentos oportunos que eu aproveitava pra respirar ao ar livre.

 O vento estava forte demais e meu guarda-chuva virava ao avesso. Com um pouco de dificuldade, consegui fechá-lo e continuei andando, observando como as rachaduras da calçada eram rapidamente preenchidas pela água da chuva. Me surpreendi ao ver que, do outro lado da rua, havia uma casa com portas gigantes de madeira ainda abertas. Olhei de relance e parecia um bar devido às mesas e ao balcão comprido que tinham lá. Nunca tinha reparado naquele lugar antes, por mais que passasse por ali todos os dias. Devia se camuflar com a luz do sol e se tornar mais uma daquelas casas antigas. Atravessei a rua e resolvi entrar.

 O espaço era ligeiramente grande, mas não havia muitas mesas. Tinha um forte cheiro de lugar fechado e lembrava um depósito construído há muito tempo. Coloquei o guarda-chuva numa mesa e fui ao balcão. Havia um senhor idoso, barrigudo e careca, de aparência antipática, mas sorriu ao me ver entrar. Usava um avental listrado e um pouco surrado.

 ― O senhor é o garçom? Nunca vi esse lugar aberto. Comprou essa propriedade há pouco tempo?

― Não, querida. Eu moro aqui há muitos anos, no andar de cima, mas só abro o bar quando vejo que o movimento está bom.

― Quando o movimento está bom? – Soltei um riso irônico ao perceber que não havia tom de brincadeira na voz do velhinho e este ficou um pouco constrangido.

 Olhei o lugar mais uma vez e tive a impressão de que bem no canto, ao lado da entrada, havia um homem sentado, sozinho, com um cigarro aceso e uma garrafa de uísque em sua mesa. Não tinha visto ele ali antes. Virei-me surpresa para o garçom, mas ele apenas sorriu.

 Não se preocupe. É um dos meus clientes mais antigos.

― Ah, ok. Então… o que você tem aí? – Percebi que minha voz estava trêmula e que eu batia levemente os dedos no balcão. Enquanto eu acendia um cigarro ele me servia uma xícara de café.

 Fui em direção à mesa onde havia deixado o guarda-chuva e o homem não estava mais naquele canto. “Estranho… talvez tenha ido embora.” Sentei e comecei a mexer o café pra que esfriasse um pouco. Ao colocar um pouco de açúcar deixei a colher cair no chão, e ao abaixar pra pegá-la vi que tinha caído ao lado de uma arma. Senti o meu rosto corar. Olhei pro dono do bar como quem diz “tem algo estranho acontecendo aqui”, mas ele ouvia distraído a programação de baixa qualidade no radinho de pilhas. Nervosa, peguei a colher rapidamente e acidentalmente bati a cabeça na quina da mesa ao me levantar. Era melhor não tocar nela. E se tivesse sido utilizada por algum crime momentos atrás? Não, melhor deixá-la ali mesmo. No entanto, era melhor sair dali também. Comecei a mexer rapidamente o meu café, tentando manter a calma e falhando, sujando um pouco a toalha da mesa. Ao limpá-la com um guardanapo, percebi que alguém puxava a cadeira pra se sentar. Levantei o rosto para ver quem era e prendi a respiração num suspiro ao ver que era o mesmo homem que parecia estar naquele canto, com o copo e a garrafa de uísque nas mãos. Também percebi que aquela mesma arma agora estava em cima da mesa. Talvez ele tenha pegado embaixo da mesma sem que eu tivesse visto. Senti meu coração dar uma batida tão nítida, que era quase como se pudesse pegá-lo com as mãos.

 Ele aparentava ter uns 40 anos, tinha os cabelos e olhos castanhos escuros que fitavam os meus. Eram profundos. Não pareciam felizes, nem tristes, nem decepcionados ― não conseguia distinguir nenhum sentimento neles ―, mas por um momento senti como se eles pudessem ler os meus pensamentos. Sua pele tinha algumas rugas, principalmente ao lado dos olhos. Vestia um casaco de couro e percebi que nele havia um semblante de um velho homem de guerra. Ele fez um aceno com a cabeça e sentou na minha frente.

 ― As crianças de hoje em dia não sentem mais medo do escuro.

 O que ele esperava que eu dissesse? Não conheço nenhuma criança de hoje em dia.

 ― É mesmo?

― Sim. Na minha época, o medo era uma das melhores coisas pra se sentir.

― Por que?

 Nesse momento, o homem me encara mortalmente. Seus olhos demonstram, enfim, algum sentimento: insanidade. Se é que isso conta como sentimento.

 ― Porque nos obrigava a fazer coisas malucas.

― Que tipo de coisas malucas?

― Pular o quintal do vizinho, tocar a campainha e sair correndo, desafiar a morte, a vida, as pessoas, desafiar a si mesmo. Hoje em dia não se vê mais isso.

 Não sabendo o que dizer, dei um gole no café e acendi mais um cigarro.

 ― Qual o seu passatempo preferido, mocinha-sem-nome-até-então?

― Eu… Eu gosto de fumar. E o seu? – Apoio meu cigarro num cinzeiro que não estava ali antes.

― Conversar com uma pessoa que vai morrer em poucas horas. Imagino o turbilhão de tristezas, confissões, lamentações e medo que ela deva estar sentindo.

 Aquelas palavras me fizeram sentir um desespero quando olhei ao redor do bar e percebi que realmente não havia mais ninguém ali ― exceto o dono do bar que parecia calmo vendo aquela cena, enquanto agora limpava umas taças com uma toalha.

 Com um sorriso de lado, o velho deixou o cigarro no cinzeiro, pegou a arma de cima da mesa e começou a girá-la por entre os dedos, observando-a, com se fosse uma coisa desconhecida. Parou de girá-la e a colocou novamente em cima da mesa, terminando com um único gole o resto da bebida que havia no seu copo. No mesmo instante ele chegou seu rosto tão perto do meu, que pude sentir o cheiro nauseante do álcool.

 ― A Senhorita já segurou uma arma alguma vez?

― Não.

 Com um suspiro fundo, ele colocou mais uísque no copo, bebeu lentamente e recostou na cadeira debruçando um dos braços para trás.

 ― E porque não tenta? – Disse ele apontando para a arma com a cabeça.

 Fui esticando minhas mãos até o revólver e ele riu ao ver como elas tremiam. Peguei-o e coloquei bem perto dos olhos. Nunca tinha provado tal sentimento de poder. Me senti a própria Morte segurando a sua foice. Estava ali a solução de qualquer problema. A sensação de medo que eu sentia foi tomada por um frenesi que nunca experimentei antes e pude concluir que, a melhor sensação da vida, sem dúvidas, era ter o controle da morte.

 ― Sensação gostosa, não? – Os olhos do homem brilhavam ao me ver admirando a peça. ―  Qualquer garotinha da sua idade teria medo de se sentar com um velho bêbado num bar vazio. Aliás, qualquer pessoa de qualquer idade teria. Você não se preocupa com o que as pessoas pensariam de você se a vissem nessa situação?

― Digamos que o que elas pensam já não é o meu maior problema.

 Com mais um gole de uísque e agora parecendo mais interessado em mim, o velho homem tornou a perguntar:

 ― E posso saber qual seria?

― Acho que a vida já me perdeu a graça, como aparenta ter perdido pra você.

― Estranho ouvir isso de uma garotinha que está apenas começando a viver. ― Ele dizia rindo, como se o que eu tivesse dito fosse só mais uma lamentação clichê.

 Ele não entendia ― ou fingia não entender ― que tinha algo a mais dentro de mim: Algo que não me deixava ser só uma garotinha; Algo que me tomava num desejo incontrolável de obter uma coisa que eu não sabia sequer o nome. Minha única certeza é que eu já não conseguia mais domar aquela fera por muito tempo.

 Com um sorriso de lado tanto irônico quanto maligno, continuei passando meus dedos entre as dobradiças até alcançar o gatilho. Lembrando-me de filmes de ação e até num ato meio infantil, segurei a arma em posição de atirar com os braços esticados e apontei para o nada, fazendo “Tum!” com a boca simulando um tiro.

 ― E a sensação de tirar a vida de alguém, você já sentiu? ― disse ainda com apontando para o nada, olhando-o com o canto dos olhos.

 Percebi que minha pergunta o deixou um tanto constrangido, porque no mesmo instante ele desencostou da cadeira e apoiou os dois cotovelos em cada perna, inclinado-se para baixo. Seu olhar parecia o mesmo de um eterno profissional frustrado – não satisfeito consigo mesmo. Então, minhas mãos começaram a tremer mais e mais, até que apontei a arma em sua cabeça. O homem pareceu surpreso, mas ao mesmo tempo feliz.

 ― Isso resolveria todos os meus problemas, mocinha. ― disse sorrindo pra mim. Seu olhar era outro.

― E você acha que a morte é uma solução louvável? Se acha que o que estamos vivendo aqui é ruim, as teorias garantem que ninguém gostaria de saber o que vêm depois.

― Você poderia me mostrar.

 Os meus dedos começaram a formigar, meu coração batia mil vezes mais rápido e eu senti como se alguém sussurrasse nos meus ouvidos, me incentivando a fazer tal ato: atirar nele. Eu pensei em soltar a arma e sair correndo daquele bar que nunca tinha visto antes. O dono continuava limpando suas taças. Não parecia preocupado ao ver que eu estava com uma arma apontando pra cabeça de alguém ― apontando pra cabeça do seu cliente mais antigo. Tudo começou a girar ao meu redor. Uma onda de medo deu um choque na minha garganta e eu fechei os olhos com muita força, até que senti as paredes do bar estremecerem com um tiro.

 Com os olhos ainda fechados, senti que estava caída no chão gelado. Ouvia um barulho de sirene que me deixava perturbada de tão alto. Fui abrindo os olhos devagar e comecei a ficar tonta e com uma sensação de horror ao ver todas aquelas pessoas chegando ao local procurando saber o que tinha acontecido ali. Eu gritava, gritava por socorro, mas ninguém me escutava. Vi que policiais entravam apontando suas armas pra todos os cantos, mas eles não viam mais ninguém exceto o dono do bar e meu corpo caído no chão sangrando sem parar.

 ― O senhor! Explique o aconteceu aqui! ―  Um policial perguntava apontando sua arma ao dono do bar, enquanto os outros invadiam o local, revistando todos os lugares.

 ― Um suicídio. ― respondeu o velhinho, calmamente, enquanto limpava suas taças. ― Ela entrou, pediu uma xícara de café, tirou a arma e começou a sussurrar sozinha, e em um ato simples e instintivo ao mexer seu café, sorriu ironicamente e atirou em sua cabeça.

 Meus olhos se apagaram vendo o velhinho pendurando as taças límpidas.

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