Também não existe salvação em São Paulo

Oh, pedaço de mim
Oh, metade amputada de mim
Leva o que há de ti
Que a saudade dói latejada
É assim como uma fisgada
No membro que já perdi

– Chico Buarque.

Segunda de madrugada, e a única vida na rua Augusta eram os postes acessos e a chuva muito forte. Um dos motivos porque sempre achei as pessoas dessa cidade estranhas – elas preferem admirar a chuva através da janela de um quarto, bebendo suas monótonas xícaras de café e lendo alguma coisa supostamente boa. Eram nesses momentos oportunos que eu aproveitava pra respirar ao ar livre.

 O vento estava forte demais e meu guarda-chuva virava ao avesso. Com um pouco de dificuldade, consegui fechá-lo e continuei andando, observando como as rachaduras da calçada eram rapidamente preenchidas pela água da chuva. Me surpreendi ao ver que, do outro lado da rua, havia uma casarão com portas gigantes de madeira ainda abertas. Olhei de relance e parecia um bar devido às mesas e ao balcão comprido que tinham lá. Nunca tinha reparado naquele lugar antes, por mais que passasse por ali todos os dias. Devia se camuflar com a luz do sol e se tornar mais uma daquelas casas antigas e abandonadas. Atravessei a rua e resolvi entrar.

 O espaço era ligeiramente grande, mas não havia muitas mesas. Tinha um forte cheiro de lugar fechado e lembrava um depósito construído há muito tempo. Coloquei o guarda-chuva numa mesa e fui ao balcão. Havia um senhor idoso, barrigudo e careca, de aparência antipática, mas sorriu ao me ver entrar. Usava um avental listrado e um pouco surrado.

 ― O senhor é o garçom? Nunca vi esse lugar aberto. Comprou esse espaço há pouco tempo?

― Não, querida. Eu moro aqui há muitos anos, no andar de cima, mas só abro o bar quando vejo que o movimento está bom.

― Quando o movimento está bom? – Soltei um riso irônico ao perceber que não havia tom de brincadeira na voz do velhinho e este ficou um pouco constrangido.

 Olhei o lugar mais uma vez e tive a impressão de que bem no canto, ao lado da entrada, havia um homem sentado, sozinho, com um cigarro aceso e uma garrafa de vinho em sua mesa. Não tinha visto ele ali antes. Virei-me surpresa para o garçom, mas ele apenas sorriu.

 Não se preocupe. É um dos meus clientes mais antigos.

― Ah, ok. Então… o que você tem aí pra beber? – Percebi que minha voz estava trêmula e que eu batia levemente os dedos no balcão. Enquanto eu acendia um cigarro ele me servia uma xícara de café.

 Fui em direção à mesa onde havia deixado o guarda-chuva e o homem não estava mais naquele canto. “Estranho… talvez tenha ido embora.” Sentei e comecei a bebericar o meu café. Ao colocar um pouco de açúcar deixei a colher cair no chão, e ao pegá-la vi que tinha caído ao lado de uma arma. No reflexo do susto, peguei a colher rapidamente e acidentalmente bati a cabeça na quina da mesa ao me levantar, e o dono do bar ouvia distraído a programação de baixa qualidade no radinho de pilhas. Era melhor não tocar nela. E se tivesse sido utilizada por algum crime momentos atrás? Não, melhor deixá-la ali mesmo. No entanto, era melhor sair dali também.  Comecei a mexer rapidamente o meu café, tentando manter a calma e falhando, sujando um pouco a toalha da mesa. Ao limpá-la com um guardanapo, percebi que alguém puxara a cadeira pra se sentar. Olhei de lado para ver quem era e prendi a respiração num suspiro ao ver que era o mesmo homem que parecia estar naquele canto, com o copo e a garrafa de vinho nas mãos. Também percebi que aquela mesma arma agora estava em cima da mesa. Talvez ele tenha pegado embaixo da mesma sem que eu tivesse visto. Senti meu coração dar uma batida tão nítida, que era quase como se pudesse pegá-lo com as mãos.

 Ele aparentava ter uns 40 anos, tinha os cabelos e olhos castanhos escuros que fitavam os meus. Não pareciam felizes, nem tristes, nem decepcionados ― não conseguia distinguir nenhum sentimento neles ―, mas por um momento senti como se eles pudessem ler os meus pensamentos. Sua pele tinha algumas rugas, sua expressão carregava claras marcas de um tempo distante. Vestia um casaco de couro e percebi que nele havia um semblante de um velho homem de guerra. Ele fez um aceno com a cabeça e sentou na minha frente.

 ― As crianças de hoje em dia não sentem mais medo do escuro.

 O que ele esperava que eu dissesse? Não conheço nenhuma criança de hoje em dia.

 ― É mesmo?

― Sim. Na minha época, o medo era uma das melhores coisas a se sentir.

― Por que?

 Nesse momento, o homem me encarava mortalmente. Seus olhos demonstravam, enfim, algum sentimento de insanidade.

 ― Porque nos obrigava a fazer coisas malucas.

― Que tipo de coisas malucas?

― Desafiar a morte, a vida, as pessoas, desafiar a si mesmo. Hoje em dia não se vê mais isso. As pessoas estão acomadadas em prisões que elas mesmas construíram.

 Não sabendo o que dizer, dei um gole no café e acendi mais um cigarro.

 ― Qual o seu passatempo preferido, mocinha-?

― Eu… Eu gosto de fumar. E o seu? – Apoiava meu cigarro num cinzeiro que não estava ali antes.

― Conversar com uma pessoa que vai morrer em poucas horas. Imagino o turbilhão de tristezas, confissões, lamentações e medo que ela deva estar sentindo. A vida passando em frente aos olhos em milésimos.

 Aquelas palavras me fizeram sentir um desespero quando olhei ao redor do bar e percebi que realmente não havia mais ninguém ali ― exceto o dono do bar que parecia calmo vendo aquela cena, enquanto agora limpava umas taças com uma toalha observando distante a nossa conversa.

 Com um sorriso de lado, o velho deixou o cigarro no cinzeiro, pegou a arma de cima da mesa e começou a girá-la por entre os dedos, observando-a, com se fosse uma coisa desconhecida. Parou de girá-la e colocou novamente em cima da mesa, terminando com um único gole o resto da bebida que havia no seu copo. No mesmo instante ele chegou seu rosto tão perto do meu, que pude sentir o cheiro nauseante do álcool.

 ― A mocinha já segurou uma arma alguma vez?

― Não.

 Com um suspiro fundo, ele colocou mais vinho no copo, jogou o resto do meu café no chão, colocando vinho no meu copo também. 

 ― E porque não tenta? – Disse ele apontando para a arma com a cabeça.

 Fui esticando minhas mãos até o revólver e ele riu ao ver como elas tremiam, eu mesma fiquei constrangida. Peguei-o e coloquei bem perto dos olhos. Nunca tinha provado tal sentimento de poder. Me senti a própria Morte segurando a sua foice. Estava ali a solução de qualquer problema. A sensação de medo que eu sentia foi tomada por um frenesi que nunca experimentei antes e pude concluir que, a melhor sensação da vida, sem dúvidas, era ter o controle de quando a vida – de quem quer que ela fosse – poderia acabar assim, num estalo.

 ― Sensação gostosa, não? – Os olhos do homem brilhavam ao me ver admirando a peça. ―  Qualquer mocinha da sua idade teria medo de se sentar com um velho bêbado num bar vazio. Você não se preocupa que a sua família brigue com você por estar fora nesse horário?

― Digamos que minha família não é o meu maior problema.

 Com mais um gole de vinho e agora parecendo mais interessado em mim, o velho homem tornou a perguntar:

 ― E posso saber qual seria?

― Acho que a vida já me perdeu a graça, como aparenta ter perdido pra você.

― Estranho ouvir isso de uma mocinha que está apenas começando a viver. ― Ele dizia rindo, como se o que eu tivesse dito fosse só mais uma lamentação clichê.

 Ele não entendia ― ou fingia não entender ― que tinha algo a mais dentro de mim: Algo que não me deixava ser só uma mocinha; Algo que me tomava num desejo incontrolável de obter uma coisa que eu não sabia sequer o nome. Talvez a tal inquietação da juventude. Minha única certeza é que eu já não conseguia mais domar aquela fera interna por muito tempo.

 Com um sorriso de lado tanto irônico quanto maligno, continuei passando meus dedos entre as dobradiças até alcançar o gatilho. Lembrei daqueles filmes do Tarantino enquanto apontava a arma pra porta num ato meio infantil, fazendo ploc com a boca simulando um tiro.

 ― E a sensação de tirar a vida de alguém, você já sentiu? ― perguntei ainda apontando para a porta, olhando pro velho de esguela.

 Percebi que minha pergunta o deixou um tanto constrangido, porque no mesmo instante ele desencostou da cadeira e apoiou os dois cotovelos em cada perna, inclinado-se para baixo. E de repente seu olhar meio ameaçador se transformou num olhar frustrado. Então, minhas mãos começaram a tremer mais e mais, até que apontei a arma em sua cabeça. O homem pareceu surpreso, mas ao mesmo tempo feliz.

 ― Isso resolveria todos os meus problemas, mocinha. ― disse sorrindo pra mim. 

― E você acha que a morte é uma solução louvável? Se acha que o que estamos vivendo aqui é ruim, as teorias garantem que ninguém gostaria de saber o que vêm depois.

― Você poderia me mostrar.

 Os meus dedos começaram a formigar, meu coração batia mil vezes mais rápido e eu senti como se alguém sussurrasse nos meus ouvidos, me incentivando a fazer tal ato: atirar nele. Eu pensei em soltar a arma e sair correndo daquele bar que nunca tinha visto antes. O dono continuava limpando suas taças. Não parecia preocupado ao ver que eu estava com uma arma apontando pra cabeça de alguém ― apontando pra cabeça do seu cliente mais antigo. Tudo começou a girar ao meu redor. Uma onda de medo deu um choque na minha garganta e eu fechei os olhos com muita força, até que senti as paredes do bar estremecerem com um tiro.

 Com os olhos ainda fechados, senti que estava caída no chão gelado. Ouvia um barulho de sirene que me deixava perturbada de tão alto. Fui abrindo os olhos devagar e comecei a ficar tonta e com uma sensação de horror ao ver todas aquelas pessoas chegando ao local procurando saber o que tinha acontecido ali. De repente gritava por socorro, mas ninguém me escutava. Vi que policiais entravam apontando suas armas pra todos os cantos, mas eles não viam mais ninguém exceto o dono do bar e meu corpo caído no chão sangrando sem parar.

 ― O senhor! Explique o aconteceu aqui! ―  Um policial perguntava apontando sua arma ao dono do bar, enquanto os outros invadiam o local, revistando todos os lugares.

 ― Um suicídio. ― respondeu o velhinho, calmamente, enquanto limpava suas taças. ― Ela entrou, pediu uma xícara de café, tirou a arma e começou a sussurrar sozinha, e em um ato simples e instintivo ao mexer seu café, sorriu ironicamente e atirou em sua cabeça.

 Meus olhos se apagaram vendo o velhinho pendurando as taças límpidas.

Imagem

 

 

Anúncios

7 Comentários

Arquivado em conto

7 Respostas para “Também não existe salvação em São Paulo

  1. amanda

    como havia lhe dito: encantadíssima.

  2. Kenya

    Gostei mesmo… eu realmente não sabia que você escrevia tão bem!!! Agora trate de escrever muitos outros contos… ^^

  3. Eu comecei a ler achando que encontraria os tais escritos de qualidade duvidosa, mas com uma possível carga de sentimento que superaria o pouco domínio das palavras para uma jovem menina.

    No segundo parágrafo vi que não poderia continuar sem acender um cigarro e servir-me de rum no copo mais bonito que tenho – na falta de uma taça. Foi preciso ler em voz alta e sentir cada palavra para agora poder dizer que escreves de um jeito que nenhum adjetivo meu agora poderia definir.

  4. Me lembrou Fight Club. Muito bom, de verdade.

  5. Compraria seus contos, taynarinha ♥

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s