Arquivo do mês: julho 2012

Que borbulha, deixa marcas.

 

Toda essa gente estranha me seguindo nas calçadas, nos bares, nos supermercados, me olhando esquisito como se o que eu tivesse feito ontem fosse algo desumano, mas são eles que escondem essa humanidade que eu não ligo de deixar transparente no meu peito. Saí da casa dele pensando minha-mãe-vai-me-matar-a-condição-de-eu-dormir-fora-era-chegar-às-onze-da-manhã-e-já-são-quase-duas-da-tarde, mas o seu sorriso logo de manhã e essa cara de sono compensa o esporro, vai ser proteção, cê vai ver. Entrei na primeira padaria com a ideia de aparecer com pães pra ela ver que eu me importo e que não sou uma filha desapegada, quem sabe assim eu aproveito e faço um café e a gente conversa sobre coisas da vida, da sua adolescência que eu não sei, você nunca me contou, por que, mãe? Devia ser danada, aposto, todo mundo que tem o olho verde é meio danado e tem um monstro calmo dentro do peito. E aí quem sabe se você me contasse eu contaria também sobre coisas que eu não conto nunca porque você não dá espaço, mas com o café assim passado na hora as coisas fluiriam, quem sabe? Eu contaria que adoro fazer sexo, sabia que eu não sou virgem há muito tempo? E que também adoro beber, inclusive foi eu quem bebeu a vodca que o tio esqueceu aqui outro dia e não tem nada demais uma mocinha da minha idade beber isso é coisa que colocaram na sua cabeça e que fumar eu também fumo, mas nisso eu maneiro por causa do pai que já morreu por conta do cigarro e eu não pretendo morrer por causa disso também porque eu sei que você não aguentaria outro tranco desses. Cê tá vendo como eu tenho um coração enorme? Aí eu comprei o pão e o moço da padaria falou “Você tá radiante hoje.” eu achei graça “São seus olhos, seu Pedro.” e continuei seguindo. O portão de casa tava fechado ainda, achei estranho, será que você ainda tava dormindo às duas e meia da tarde de um domingo? Não, porque você acorda cedo mas eu entrei e você tava dormindo mesmo, aí te olhei assim pelo cantinho da porta do quarto, você é tão linda, mãe. Fui pra cozinha fazer o café forte e doce do jeito que você gosta, fiz bastante barulho com as panelas pra ver se você acordava e você acordou mesmo “É você?” Sim Cheguei Mãe Eu Perdi A Hora Mas Eu Juro Que Da Próxima Vez Chego Cedo É Que Eu Não Ouvi O Despertador Tocar. “Tudo bem, o almoço tá na panela, tem bolo na geladeira.” mas eu não quero almoço tô fazendo um café pra gente mas até que com bolo cairia bem e quando eu abri a geladeira tinha um bolo de aniversário enorme escrito seu-nome-37-anos de glacê. Fiquei ali parada, idiota, pensando em frente a geladeira que hoje era dois de Janeiro e porra como eu pude me esquecer do seu aniversário? A água do café ferveu demais, molhou o fogão todo, fui tentar limpar e espirrou nos meus braços, queimou, doeu muito, fui pro banheiro lavar com água fria e quando te vi cê tava chorando, mãe, e seu choro doía mais que a água quente nos meus braços. Perdoa.

 

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