Arquivo do mês: agosto 2012

Sonhei que você tinha morrido.

Parada na portaria do teu prédio sem coragem de entrar. Olhava pros lados e a rua tava vazia, ninguém passava na calçada, ninguém resolveu sair de casa pra tomar um sorvete, logo no domingo à tarde que tava um dia tão bonito, nuvens fofas no céu, sol agradável.

Apertei o 102, “Sou eu”, o portão abriu e eu me rastejei pra dentro. Tinha um carro vermelho com os vidros empoeirados do vizinho de baixo na garagem, fiz umas florzinhas ali com o dedo, fui andando por trás dele e achei a porta daquele quartinho-deposito onde a gente transou uma vez, lembra? Eu tinha falado no serviço que minha-avó-tava-doente-e-não-tinha-ninguém-pra-ficar-com-ela e ficamos o dia inteiro ali, levamos duas cadeiras, abajur, um varal e perdemos a tarde como dois adolescentes. Montamos uma barraca com uns lençóis da sua mãe, que por sinal ficou bem brava depois, porque cê tinha sujado com poeira e não pôs pra lavar nem levou as cadeiras pra cozinha de volta depois que eu fui embora.

Eu não tava com co-ra-gem de ir no seu apartamento, só de estar na portaria do teu prédio tava me dando vontade de vomitar, uma sensação que tinha alguém na minha frente socando minha barriga, sabe? Aí eu lembrei de uma coisa que o Felipe falou uma vez quando a gente conversava sobre como essas cerimônias que as pessoas fazem quando alguém morre são cafonas demais. “Imagina a cena friamente: um monte de gente chorando em volta de um corpo morto dentro duma caixa de madeira. É ridículo!” e bem era mesmo. Na hora eu ri, mas lembrei que quando o meu pai morreu, eu fiquei o velório inteiro sentada do lado do caixão, tirei aquele véu branco que colocam por cima de pessoas mortas e fiquei fazendo carinho na testa dele, chorando e falando “Ai, pai, mas logo você?”. Um drama horroroso, até que finalmente conseguiram me tirar dali “A gente precisa ir, pequena” e eu fui chorando pro cemitério com as mãos cheirando a formol. Tive vontade de falar “Não é engraçado quando é você que tá lá”, mas ele ia perguntar se eu já tinha passado por alguma dor ou trauma e essas coisas chatas que eu odeio falar sobre. Mas cara, minhas mãos fedem até hoje.

Subindo as escadas encontrei a Mariana, o Samuel e a Carmélia sentados. Na verdade eles estavam consolando a Mariana, e ao vê-la ali soluçando de tanto chorar aquele choro hipócrita eu só tive uma vontade monstra de chutar a cara dela. Apontar o dedo e gritar “A culpa é sua! Foi você que deixou isso acontecer. Você sabe que ele sempre teve um pé meio fora da realidade e fez questão de que ele abandonasse o único equilíbrio que tinha.” Queria que ela enxergasse o quanto a vida dele afundou mais depois que ela apareceu. Queria que ela se sentisse mal, culpada, queria que fosse um daqueles dramas que ela se jogasse da janela por peso na consciência, mas nada disso aconteceu, dei um abraço reconfortante e continuei subindo.

Quando abri a porta dei de cara com sua mãe. Ela tava com aquela mesma expressão de quem sabe do filho merda que tem mas prefere ver só o lado bom dele. Vê-la ali com uma expressão triste de mãe que falhou e sofre com isso – uma das coisas mais tristes da vida – , um ar de “Mas o que eu fiz de errado?” só me deu um aperto no peito por não tê-la procurado quando me perguntei se ela tava levando isso numa boa. Se ela sabia que tinha um peso nas costas, se ela tinha noção do perigo que era não enxergar isso. Mas mãe é mãe, cega de inocência, incrédula de ter gerado alguém tão perfeitamente perfeito que foi isso que te estragou, te apodreceu por dentro.

Cê tava branco, pálido, parecia que passaram pó de arroz na sua cara. Teus olhos azuis se desmancharam e pintaram tuas pálpebras fechadas com um tom bonito. Acho que foi a primeira vez que te vi calmo e sereno sem ser nos pós-orgasmos que tivemos. Oh, cara, tá vendo quanta gente aqui? Cê era querido demais. E aí eu comecei a chorar porque você também fedia a formol e também tinha um véu branco por cima da tua cabeça.

Quando a gente tem um sonho cansativo e acorda é como se a nossa cabeça forçasse o travesseiro para baixo, como quem tenta fazer um buraco na cama até cair no chão. Aquela fronha toda suada, aquele suspiro triste logo de manhã. Sonhar com tua morte me fez lembrar do passado e passado triste é igual pó nos móveis: tem que ter cuidado na hora de limpar, se não começa uma crise de espirros eterna, ainda mais se você tem alergia. Comecei a pensar como eu seria hoje se você não tivesse aparecido na minha vida. Não teria conhecido a Paraty, não teria chorado com Tom Jobim, as noites nas sarjetas do Vinícius não me serviriam mais de inspiração – porque a gente fazia o mesmo trajeto e ouso dizer que com mais amor e poesia (mesmo que o uísque fosse barato). Às vezes até acredito que eu não seria tão eu desse jeito assim, meio torta, mas tão querida pelos outros. Cê dizia que eu era uma ostra, lembra?

Mas também não teria esse procurar-você-neles-inconsciente que me seguiu por tanto tempo, que sempre me dava uma frustração, fazia minhas noites terminarem sozinha encolhida na cama em lágrimas depois de um amor pela metade. Amor é bom, amar é melhor ainda, mas dá um trabalho chato no início de tudo, onde “tudo são flores”, e você sabe que eu nunca tive paciência e a minha tendência de jogar tudo pro alto nessa fase eram enormes. Só com você começou a ser diferente. Se eu não tivesse te conhecido, quem sabe eu não seria assim tão triste, não andaria com esse guarda-chuva que me protege de qualquer gota de amor que ameaça cair em mim?

E porque você me construiu e desconstruiu, te odiei por muito tempo. E por muito tempo me senti como um prédio antigo: bonito, mas com ar de quem precisa de reforma. E porque você me ensinou a andar com os próprios pés e tirou os meus sapatos me fazendo andar em cacos de vidros, desejei seu mal sempre que escutava teu nome. Aqui no peito ficou uma mistura esquisita, um obrigada-por-tudo com um obrigado-por-ter-ido-embora. E porque me diziam que “passa, com o tempo passa, lê um livro, assiste um filme, cê vai ver”, ansiei pelo momento que você entrasse pela porta pedindo sua camisa que você esqueceu aqui no armário (e que dias depois vi a Mariana usando) e quem sabe conversaríamos sobre como você tá, tá melhor? não fica triste, cê sabe que pode contar comigo, ó, e esbarraríamos nossas bocas num abraço amigo.

Mas hoje acordei triste por ter sonhado com tua morte e foi quando eu percebi que depois de tanto ter cantado “Eu já matei você mil vezes / e seu amor ainda me vem/ então me diga/ quantas vidas você tem?” minha prece finalmente foi ouvida. Porque de todas as sensações bonitas, de todas as músicas que você trouxe, o que ficou aqui foi um nada. Não é nada de vazio, de raiva, de saudade, de ódio… É só um nada, como se nunca tivesse existido. Tomei um café forte, acendi um cigarro, sentei na varanda com aquela tristeza matinal. E chorei. Chorei por tua morte em vida.

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