Arquivo do mês: outubro 2012

Sobre ausência de camelô

Só é permitido saudade se ela vier torrencial
Com vontade de ser assassinada
Com economias pro ônibus,
Pro lanche no meio da estrada
Pro táxi chegar aqui de surpresa.
Caso contrário, que gaste seu dinheiro com
bares, pubs, restaurantes caros
Que ocupe a cabeça com pseudo conhecidas e outras tais
Que não adianta procurar, não terão nada de mim.

Só é permitido saudade se depois de muito tempo
ao lado do telefone num dilema
ligo-não-ligo,
Oferecer pra mim no rádio
a música mais brega por vingança.
Caso contrário, guarde a frase tão importante
Não a transforme num clichê de convenção social,
É ignorância.

Só é permitido saudade se junto da carta vier:
um papel de chiclete amassado,
um canudo mordido,
uma entrada pro cinema.
No canto da carta, miudinho:
“Depois que você foi embora,
resolvi cuidar dos meus dentes.
Cortei chiclete,
Cortei refrigerante,
Cortei a pipoca do cinema,
o que me fez cortar o cinema.
Mas pelo menos aumentei
a velocidade da minha internet”.

Só é permitido saudade se ela vier com ternura,
desejo, loucura,
Coragem de perder prova na faculdade,
reunião no trabalho, aniversário de mãe
Pra fugir pra cá,
E dar
Um oi corado,
Um abraço apertado,
Uma vontade de beijo.

Só é permitido saudade depois de muita insônia
Ficar penando pelo apartamento com ares de poeta
Olhar os buraquinhos da lua
Procurar meu rosto ali
E achá-la assim mais completa.

Caso contrário, que se forme na faculdade com dez.
Que cante parabéns pra dona Inês,
Que decida com eles o melhor pro seu freguês,
Que apodreça os dentes,
Que respire cinema,
Que ligue pra mim e diga que é engano.
Mas não diz que tá com saudade
Se isso não te lembra praia,
Nós dois na praia,
Los Hermanos,
Água de coco,
Maresia,
Nunca mais pisei numa praia.

Só é permitido saudade se sentir revolta
E tentar a todo custo saber o nome do meu perfume.
Chegar aqui tirando minhas roupas do armário
Cadê? Cadê? Cadê?
O perfume que não sai da minha cabeça,
Preciso do nome pra comprar um frasco e poder dormir em paz.

Caso contrário, guarde pra você
Esse feitiço que me faz lembrar nós dois
E acaba comigo.

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Entre becos e barbas

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imenso é o mar
imenso é amar,
o resto em mim
é respeito
muito sem jeito
caminhando em areia fofa. 

(thiê)

Que vontade de te ligar agora e dizer que esse Rio de Janeiro é a sua cara, e que mesmo você sendo chato e herege dizendo que “não gosta muito da cidade e sim das pessoas”, ainda acho que cê devia vir pra cá passar uns dias, sozinho. Aí você me diria que lógico-que-eu-iria-ao-Rio-te-ver mas eu diria não, primeiro vem sozinho. Te daria um mapa feito à mão, desenharia com lápis de cor os lugares e trajetos que eu queria que você conhecesse e só depois de ter certeza que você sentiu tudo isso que eu tô sentindo nesse exato momento em que eu tô aqui, deitada nesse apartamento na Lapa tentando dormir, mas preferindo ouvir a conversa de um pessoal rindo aqui embaixo, eu te encontraria por entre essas esquinas cheias de barbudos. Não porque eu gosto de barbas, mas porque a sua nunca cresce e assim seria mais fácil te reconhecer.

Foi quando eu lembrei que eu já não tenho aquela intimidade de poder ser espontânea assim com você. Se eu não posso mais ser eu mesma, o que mais posso ser? Fiz mal em não ligar? Afinal, que parte de mim ainda tem guardada aí? Vai saber. E isso doeu, raparigo, doeu mesmo. Porque é ruim saber que você sempre vai estar entre todas as coisas boas que me acontece na vida – acontece, mesmo, presente do indicativo, porque ainda sinto você por aí, principalmente em lugares bonitos como esse aqui – enquanto eu vou estar só nesse suspiro de lamento aí que você solta sempre que se frustra em não descobrir do que é feito o samba. E posso te dizer? Aqui você descobriria. Mas quando essa raiva, tristeza, incômodo, indecisão, orgulho, seja-lá-o-que-for passar – e por favorzinho, toma um remédio pra passar logo – , aproveita e passa aqui também. Pega carona na cauda de vento dessa coisa besta e salta aqui. O apartamento é 605, sexto andar. E traz cerveja.

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