Sobre ausência de camelô

Só é permitido saudade se ela vier torrencial
Com vontade de ser assassinada
Com economias pro ônibus,
Pro lanche no meio da estrada
Pro táxi chegar aqui de surpresa.
Caso contrário, que gaste seu dinheiro com
bares, pubs, restaurantes caros
Que ocupe a cabeça com pseudo conhecidas e outras tais
Que não adianta procurar, não terão nada de mim.

Só é permitido saudade se depois de muito tempo
ao lado do telefone num dilema
ligo-não-ligo,
Oferecer pra mim no rádio
a música mais brega por vingança.
Caso contrário, guarde a frase tão importante
Não a transforme num clichê de convenção social,
É ignorância.

Só é permitido saudade se junto da carta vier:
um papel de chiclete amassado,
um canudo mordido,
uma entrada pro cinema.
No canto da carta, miudinho:
“Depois que você foi embora,
resolvi cuidar dos meus dentes.
Cortei chiclete,
Cortei refrigerante,
Cortei a pipoca do cinema,
o que me fez cortar o cinema.
Mas pelo menos aumentei
a velocidade da minha internet”.

Só é permitido saudade se ela vier com ternura,
desejo, loucura,
Coragem de perder prova na faculdade,
reunião no trabalho, aniversário de mãe
Pra fugir pra cá,
E dar
Um oi corado,
Um abraço apertado,
Uma vontade de beijo.

Só é permitido saudade depois de muita insônia
Ficar penando pelo apartamento com ares de poeta
Olhar os buraquinhos da lua
Procurar meu rosto ali
E achá-la assim mais completa.

Caso contrário, que se forme na faculdade com dez.
Que cante parabéns pra dona Inês,
Que decida com eles o melhor pro seu freguês,
Que apodreça os dentes,
Que respire cinema,
Que ligue pra mim e diga que é engano.
Mas não diz que tá com saudade
Se isso não te lembra praia,
Nós dois na praia,
Los Hermanos,
Água de coco,
Maresia,
Nunca mais pisei numa praia.

Só é permitido saudade se sentir revolta
E tentar a todo custo saber o nome do meu perfume.
Chegar aqui tirando minhas roupas do armário
Cadê? Cadê? Cadê?
O perfume que não sai da minha cabeça,
Preciso do nome pra comprar um frasco e poder dormir em paz.

Caso contrário, guarde pra você
Esse feitiço que me faz lembrar nós dois
E acaba comigo.

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3 Comentários

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3 Respostas para “Sobre ausência de camelô

  1. Laura

    Eu adorei. Sem mistério de palavras bobas, só uma sinceridade que dói de tão certa..

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