Arquivo do mês: dezembro 2012

Passarinha

Ler ao som de 20 Anos Blues, Elis Regina.

Para Hozana, que também merece todo o amor do mundo.

No meio do caminho tinha uma rosa
tinha uma rosa do meio do caminho
tinha um passarinho
no meio do caminho tinha uma rosa e um passarinho

Era um passarinho blue, que pegou a rosa
e saiu por aí voando com a rosa no bico
E de tão blue, despedaçou a rosa
e suas pétalas foram caindo

caindo
caindo
caindo

até que por um milagre da natureza nasceram rosas blues pelo caminho.

Uma dessas rosas blues
Foi atrás do passarinho
Existir que estourasse com seu bico
Essa raíz blue
Que a prendia no chão
“Eu estouro se você adivinhar meu nome”

Em três dias o passarinho voltaria
E a rosa perguntou as outras rosas
Se uma delas sabia o nome daquele passarinho

“Deve ser algo parecido com Rosa”
“Pra ter te prendido deve ser algo doído: Ana”
“Talvez RosAna”
Errou: Hozana

E o passarinho blue fugiu do blues da rosa blue

Por arrependimento e solidão
a flor com os dentes
estourou a bolha blue
foi atrás do passarinho
com uma desculpa meio
“Eu leio Ouzana em vez Ozana
Tiro o z que faz zum
E te imploro
Fica, Ana.”

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Barbarella

Para Felipe Araujo.
baba
Tuas sapatilhas amarelas
sendo plataforma do marrom
que começa nos teus dedos dos pés e vai
até o último fio de cabelo.
Cabelo que faz nuvem,
nuvem que eu sentaria e apoiaria meus pés
nas tuas saboneteiras.
Saboneteiras que escapam,
do teu vestido estampado
com flores coloridas
que com tua pele fazem o contraste mais bonito que já vi.
Saboneteiras que ficam de fora me deixando assim meio
doido, doído
sem jeito
querendo ser uma dessas flores.
Flores que eu mandei a natureza copiar
pra deixar no vaso em cima da tua mesa da sala.
Tua sala, teu sofá, que eu daria tudo pra estar sentado
enrolando tua nuvem na minha nuvem.
Mas por enquanto só chove.

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Sede Infinita De Não Sei O Quê

Hoje eu acordei triste
porque era primeiro de Dezembro
porque era primeiro de Dezembro de 2012
porque eu já existo há muito tempo
e esse peso nos ombros não alivia
mesmo com todos dizendo que
eu-não-vi-nada-da-vida.

Hoje eu acordei triste e
tentei procurar minha tristeza
numa música qualquer.
Vasculhei Los Hermanos, Cartola, Cazuza
Chico, Vinícius de Moraes, Toquinho
Caetano Veloso, Tom Jobim e até nas letras do Caio.
Mas ninguém achou,
só sabem das suas primas:
são fumacinhas, argolas de fumaça
nuvem que sai do céu da boca
e vai pro céu de todo mundo.

(A minha tristeza deve ser
o ventinho que vira
a folha do jornal do velhinho sentado
na praça, atrapalhando
sua leitura.)

Hoje eu acordei triste
uma tristeza-marasmo banhada
a angústia e outras mil aflições.

Pensacomigofingequesoueu
eentranomeueu
sóporummomento.

Tenta ouvir
bai
xi
nho
eunãoseidenadanofimdascontas.

ninguémsabedenadanofimdascontas.

Nem você.

Esse marasmo de tristeza grudou
no teto do meu quarto,
fez amizade com as aranhas
e agora mora em suas teias.

Hoje eu acordei triste
e fiquei mais triste ainda
quando vi o Drummond dizer:
“amar a nossa falta mesma de amor“.
Eu não posso concordar com você, Senhor.
Eu não quero amar falta nenhuma.
Essa falta aqui no peito
não deixa meu corpo ficar ereto,
ele cai se não tiver ossos de amor.
Não posso amar a falta.
Tira isso do seu poema.

Tô mais triste ainda
que o Drummond já morreu.

Disseram que eu devia me segurar
na cauda de lembranças boas
e sair voando por aí.
Mas o que posso fazer
o que posso fazer, meu Deus
se eu sei que vou cair entre
essas curvas do cérebro
que guardam a melancolia
de momentos bons que chegaram ao fim?

Hoje eu acordei triste
porque sei que existem muitas curvas com fins,
e no final são muitos fins
muitas ruas sem saída.
Tenho medo de sair
caminhando por aí de madrugada,
dar de cara com uma dessas,
e não saber voltar.

Hoje eu acordei triste
porque me acostumei com essa tristeza.

Não que ela me incomode,
não que ela faça barulho,
ela mal atrapalha meu sono.
Na verdade, ela anda cabisbaixa
porque sabe que descobri seu nome:
Sede Infinita De Não Sei O Quê.

Agora ela fica quietinha
de vez em quando puxa
a barra da minha saia
como uma criança que
acaba de ser descoberta e
pede um pouquinho de atenção.

Eu disse:
“Fica calma, dorme aqui no peito“
E enquanto ela dorme
vou atrás da água que ela bebe,
e mesmo que eu nunca encontre
de sede não morrerá.

A minha busca a alimenta.

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