Arquivo do mês: julho 2013

Ticket

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I don’t know why she’s ridin’ so high.
She ought to think twice.
She ought to do right by me.
Before she gets to sayin’ goodbye,
She ought to think twice.
She ought to do right by me.
– The Beatles

Entre todas as mil e umas partes ruins de se morar numa cidade sem metrô, perder o último ônibus pra casa e estar sem dinheiro para o táxi é certamente a pior delas. Pior ainda quando a rodoviária tá vazia, quando você não tem relógio por perto, quando o seu celular foi roubado e o seu 13º foi todo pros remédios da sua mãe, e dinheiro pra comprar um aparelho novo, só no mês que vem. Nessa sequência de vida estagnada você simplesmente senta-se cansada num desses bancos com figuras obscenas e perde a noção do tempo, porque o céu da madrugada não te ajuda a identificar se é madrugada-que-veio-agora ou se já-tá-quase-amanhecendo. Foi ali, sentada, que eu vi esse sujeito chegar e sentar a uns 5 metros a minha frente; um exemplar de “Numa Fria” na mão, o cigarro noutra e uma sacola com uma latinha de Coca pendurada na mochila. Já que eu teria que esperar o amanhecer, que eu não sabia se estava próximo ou não, peguei meu exemplar de Morangos Mofados na bolsa e comecei a esfolheá-lo, até perceber uma fumaça se esvaindo entre meus cabelos.

– Perdão?

– Isqueiro. – disse aquele sujeito estranho que só de perto reparei nas suas enormes monocelhas. Caso eu fosse estuprada por aquele cara que lê Bukowski e bebe Coca quente numa rodoviária vazia, no retrato falado era bom que eu ressaltasse as monocelhas.

– Eu não tenho. – respondi virando pro lado oposto daquele sujeito entrão.

– Eu sei. Eu tenho. – e ergueu um cigarro e um isqueiro pra mim, que eu aceitei e comecei a tragar já pensando quais substâncias tóxicas a mais o cara poderia ter colocado nele.

– Tá descascando ou querendo se inspirar? – continuou.

– Perdão?

Apontou pro livro que eu lia.

– Ah… nenhum dos dois. Ganhei ontem e tô lendo só agora.

– Gosto muito dO Dia que Júpiter Encontrou Saturno – falou já pegando o livro da minhamão e desfolheando. Começou a ler em voz alta.

“Tudo isso é muito abstrato. Está tocando Kiss Kiss Kiss. Por que você não me convida pra dormimos juntos?”

– Bonito mesmo.

– Se eu disser que leio mentes e me apaixonei pelos teus devaneios, tu dorme comigo essa noite?

– Se eu disser que não, você faria o favor de sair daqui?

Aí ele sentou do meu lado rindo como quem diz “tô-brincando-guria” e nesse instante eu fiquei mais calma, pelo menos o suposto estuprador era amigo.

Então ele me olhou estranho. Deveria ter visto que  mais cedo eu tava nuns desses infernos de quem-já-entrou-na-vida-adulta-e-quer-pedir-pra-sair-mas-hoje-aqui-tu-veio-pra-relaxar-pega-essa-vodka-e-deixa-ela-entrar-como-se-ali-tu-fosse-esquecer-dessa-dor-miserável-e-estática-que-invade-todo-mundo-mas-aqui-fingimos-ignorar-bem. Balada, eu tava na balada bêbada e sozinha por causa dessa sensação de estar-no-lugar-errado-com-as-pessoas-mais-erradas-ainda. Eu só queria deixar minha alma nua, mostrar os mofos que tenho por dentro pra essa gente estranha que tem os mesmos mofos que eu. Lá dentro, eu era alguém frustrada porque Ele tinha ido embora há 15 minutos. Como pássaro que voa quando você se aproxima devagar pra observá-lo e pensa que o mundo que está deixando pra trás fosse cuspí-lo assim que levanta seu voo, e não adiantasse o quanto eu dissesse que não, que ficasse: ele já tinha sobrevoado a cabeça por cima daquelas cabeças e eu era só, no meio daquelas cabeças todas. Parada. Bêbada. Ridícula. Não acreditou quando eu disse que largava tudo por ele, e eu largava. Foi quando eu comecei a dançar, porque é isso que achava que deveria fazer quando já não havia o que fazer – deixei aquela batida horrível que não muda desde os anos 90 entrar no meu corpo e deixei meu corpo passar por outros corpos até que Ela surgiu no meio de todas aquelas cabeças e corpos ouvindo a mesma batida horrível que eu. Os lábios mais vermelhos que qualquer vermelho que já vi na vida. Pegou-me pela mão e me levou. Pra onde, eu não sabia, mas fui indo, indo, e quando dei por mim aqueles lábios vermelhos estavam deixando os meus vermelhos também. Vermelho de batom, vermelho de mordida, vermelho amargo que derretia com minha saliva e deixava meus dentes e minha língua vermelha. Meus olhos estavam fechados, e quando os abria podia ver aqueles luzes piscando em volta. Fechei e abri de novo, e as luzes de repente ficaram vermelhas também. O cheiro ficou vermelho, com cheiro de rosas vermelhas. Tudo era vermelho. Vermelho que transformava a música num sopro gelado e entrava em mim pela inspiração, limpava meu corpo, desintoxicava a alma, clareava as coisas e as deixava num tom mais bonito. Foi quando senti alguma coisa vibrar no meu bolso de trás – o despertador do celular, avisando que daqui a 1 hora passaria o primeiro ônibus da madrugada.

– É que eu não queria dormir essa noite. – disse ele.

– Mas tu tá com os olhos vermelhos de sono.

– Não é sono, esse sou eu tentando não dormir essa noite. Me ajuda.

– Ajudo.

Então ele me puxou pelas mãos e me levou. No meio do caminho eu disse espera, preciso fazer uma coisa. Pintei os lábios dele de vermelho e o beijei. Beijei até que tudo ficasse vermelho novamente, até que eu esquecesse aquele pássaro, até que eu não ficasse preocupada com onde poderia estar indo.

– Por que fez isso? – perguntou.

De todos os sexos da minha vida, eu poderia descrever aquele como uma música que me invadia e me fazia ouvir bem todos os sussurros lá fora, embora eu quisesse só ouvir a tal música que era tão pura e necessária naquele momento. Pobres reles mortais que nunca sentirão os deslizes que eu ouvi ali, mesmo sabendo que no fundo alguém ria de mim. Seria ele? Por via das dúvidas, quando ele adormeceu, levantei da cama e vesti minhas roupas. Pensei em deixar algum bilhete ao lado do seu travesseiro, mas saí do quarto com passos leves deixando a porta aberta, meu lado da cama desarrumado e nenhum cheiro pra trás. Ao abrir a porta, ele me viu levantar, e quando já estava quase saindo, perguntou de lá de dentro:

– Tu gosta de vermelho, né?

– Gosto.

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