Arquivo do mês: outubro 2013

Monotonia

Nicholas Stevenson

Nicholas Stevenson

Após comer umas bolachas com chá de erva cidreira na madrugada de domingo e ler versões distorcidas de contos de fadas, deitou-se tentando dormir. Disseram que chá era ótimo pro sono vir rápido e leve, e torceu pra que isso acontecesse depois de muitas horas rolando na cama. Apagou a luz do abajur, afofou o travesseiro, deitou a cabeça, planejou seu dia, que começaria daqui a poucas horas. Quase cochilando, ouviu um barulho de plástico sendo amassado. Lembrou-se das crianças da rua que tinham quebrado o vidro da janela do seu quarto com brincadeiras bobas de tampar pedras nas janelas dos outros, pensou que pronto, agora seria assaltada. Desde que se mudara pra capital, era essa a maior advertência de todos “Anda pelos lugares com cuidado e olhando pros lados pra não ser assaltada”. Mesmo com as luzes apagadas, a luz da lua e dos outros prédios ao redor iluminava um pouco seu quarto. Olhou pelo buraco deixado na janela na esperança de encontrar o brilho de um par de olhos estranhos tentando chegar mais perto, até que ligou o abajur e viu que o barulho vinha de uma barata que andava pelo plástico das bolachas que ficou ali no canto. Levantou com má vontade, esmagou a barata com uma sandália, levou o pacote da bolacha pro banheiro e jogou o resto do chá na pia. Sentou pra fazer xixi. Olhou a lua pelo vasculhante: tava linda, tava sorrindo pra ela. Naquela cidade, sentia falta de sorrisos sinceros. Desejou ter uma câmera pra fotografar e olhar pro sorriso sempre que quisesse, ou pra desenhar junto com dois olhos – estes que seriam profundos e sinceros, o que também estava em falta. Lembrou de um livro que lera, “com um sorriso desses, você não precisa de olhos”, ou era o contrário? Porque pra ela, um dispensava o outro, mas se contemplavam ao mesmo tempo. Estava cansada de olhares frios. Pensou em fazer um poema, seria bonito falar das fumacinhas em volta da lua, mas ela era tão bonita que não caberia em versos, perderia a graça. Saiu do banheiro, vestiu sua melhor roupa e saiu. Faltavam 3 horas pro amanhecer. Saiu sem cuidado, andou pelas ruas como se estivesse na sua cidade natal, dessa vez não olhava pros lados, torcia que fosse assaltada, “não tenho nada a perder, a não ser eu mesma, e eu mesma nem me pertenço”. Ansiava por esbarrar com um sentimento latejante e verdadeiro pra combinar com o sorriso que gravara na memória – mesmo que esse sentimento apagasse o dela.

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Era pra ter um final feliz

De tanto ser
todo coração,
De tanto ter
se ferido tão em vão,
Roubou o meu
e me deixou em vísceras.

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Amanheceu

Insônia
é praga
de sonhos insanos
que cansei de ter
noites seguidas
e foram repelidos
com café forte
tomados a semana inteira.

Vingativa e raivosa,
cansada de segurar
tantas alucinações,
esbraveja que tá cansada
e sai batendo a porta
com força, de manhã
como uma amante
tendo crise existencial
em plena DR.

O que fica disso tudo
é essa sensação estranha
de que o Sol no céu é intruso,
de que despertador é um câncer
e que eu preciso
de um tratamento para olheiras.

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