Arquivo do mês: dezembro 2013

Grandes coisas, José

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Ouvir ao som de Caetano Veloso – Triste Bahia

José Urvenal sempre volta pra casa de madrugada, lá pelas 2 e tantas, quando eu tô desligando as coisas e deitando pra dormir. Com seus 34 anos e olhos que não enxergam muito bem devido a miopia que não pode ser melhorada, sempre passa pedalando rápido (eu imagino que seja rápido porque em instantes sua voz vai ficando cada vez mais distante) cantando uma música gospel, sempre o mesmo trecho, mais ou menos assim:

“Grandes coisas vão surgir, grandes coisas vão acontecer nesse lugaaaaaaaaaaar” (e na repetição dos ‘aaaaaaaaa’ ele põem pra fora com toda a força o ar dos seus pulmões, não se importando que 99% da rua já deve estar dormindo a essa hora). José Urvenal é tipo aquele cachorro do vizinho que a gente sempre escuta latir em momentos que tudo que menos queremos é ouvir algum barulho, e o latido seria irritante se não estivéssemos acostumado com ele.

Nos primeiros dias em que me mudei pra essa cidade, estranhava a cantoria de madrugada e até cogitei ir conversar com o José Urvenal de dia, explicar pra ele que eu-preciso-acordar-cedo-no-outro-dia-e-a-cantoria-me-desperta-do-milésimo-sono–e-eu-já-tô-detestando-a-ideia-de-ter-largado-São-Paulo-e-vir-morar-nesse-fim-de-mundo-será-que-você-por-favor-poderia-contribuir-com-o-meu-não-suicídio-diário???? Mas desisti quando o meu pai me contou onde ele mora.

José Urvenal mora onde, literalmente, Judas perdeu as botas.

É numa dessas casinhas de pau-a-pique, que eu esperava ver em qualquer lugar do mundo, menos onde já tem energia elétrica, saneamento básico, internet, supermercado, meninas de 13 anos voltando pra casa sozinhas depois da balada. Um dia, passeando de carro, meu pai me levou lá por curiosidade, e desde então nunca reclamei de suas cantorias.

Mas, depois descobri eu não era a única que me incomodava com elas.

Segunda de manhã eu ligo a TV na hora do almoço e vejo a notícia que José Urvenal foi encontrado morto num terreno abandonado ao lado de uma escola pública daqui. Motivo? Ninguém sabe. Até onde se tem notícia, José não tinha inimigos, mas amigos também não tinha. Não tinha família, não tinha cachorro, morava tão mal que não tinha vizinhos. Só tinha os clientes de sempre que compravam seus legumes e verduras no centro da cidade, mas ele era conhecido por todos como o-cara-que-vende-verduras-no-centro-da-cidade. José Urvenal era analfabeto, perdeu a mãe quando era adolescente e o pai, nunca conheceu. Aparentemente, morreu porque era só mais uma matéria sem muita importância no espaço. Morreu sem deixar seu legado, suas histórias, o amor que tinha no peito, se é que tinha amor. Ninguém vai sentir saudade dele. Vão comentar por duas ou três semanas, vão dizer que foi covardia, mas quem vai querer pausar a rotina, ter aquele momento desconfortável na hora do almoço corrido com a família e fazer justiça por José Urvenal? Ou então, depois das 18, quem é que vai procurar um advogado mais eficiente pra estudar o caso? Quem é que vai pagar?

É.

Ninguém.

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Ciclo

Dorme bem
tão bem quanto você me faz bem
tão bem quanto o bem que eu faço
pelo bem que eu recebo de ti
que eu até tento expelir
pela falta de bem deles
pela falta de amor deles.

Obrigada.

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Um poema curto sobre teus olhos

Ao som de Guido

Café quente na mesa
Me lembrei deles, assim enormes
Refletindo tua avenida
Toda cheia de luzes
Toda cheia de casas
Que eu escolheria ao acaso
Qualquer portinha jeitosa
Pra morar
Até o fim dos dias
Ou até parar de chover aqui fora.

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Tá tudo bem agora

Quando tu foi embora
Deixou aqui um baita trauma
Deixou minha coluna pesada
Deixou tédio de domingo
Deixou nojo de escada
Deixou minha alma cansada.

Mando por correio
A única coisa boa que ficou
Já que pelo jeito tá frio aí também:
teu moletom azul vai por correio
com cheiro de roupa lavada.

Nunca mais frio desprevenido
e proposital.
Nunca mais beijo de Carnaval
às 3h da madrugada
de um dia normal.

Mas em compensação
nunca mais
tua angústia facial
que tanto me fazia mal.

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