Arquivo do mês: janeiro 2014

Pai

Se soubesse como sinto falta
das suas cheganças no fim de tarde,
do seu cheiro de cigarro misturado
com o suor do fim do dia
daria um jeito de aparecer nos meus sonhos.

Se soubesse como sinto falta
de assistir com você tv aos domingos
e brincar com os pêlos do seu nariz
enquanto você cochila,
daria um jeito de aparecer nos meus sonhos.

Se soubesse como sinto falta
de você comendo as sobras do meu almoço,
me ensinando truques de cartas
(pra no final me deixar ganhar as partidas)
daria um jeito de aparecer nos meus sonhos.

Se soubesse como é desesperador
não lembrar do formato
de todos os seus dentes
ou da entrada de suas orelhas
daria um jeito de aparecer nos meus sonhos.

Soubesse tu como é ruim
saber que não vou ter ver
na minha janela às 5:30 da manhã
e que ninguém mais me acorda
com cosquinhas nos pés,
me roubaria rapidinho
só pra eu ter certeza
que você tá bem melhor que eu
como todo mundo diz.

(De todas as minhas saudades,

a tua é a que mais me dói).

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O problema

Ah, se não fossem todas as tuas idas
todos os seus destinos,
suas horas marcadas,
suas horas de sono
esses quilômetros de distância
esse atraso de toda uma vida.

Ah, se não fosse
toda essa dualidade
todo esse fingir que tá-tudo-bem
quando na verdade eu tô
quebrada por dentro.
Toda essa força forçada
quando eu me vejo fraca demais
pra seguir em frente
e igualmente fraca
pra voltar todo o caminho andado.

Ah, se não fosse toda essa inércia.

Ah, se não fossem todos esses exageros
todas essas decisões tomadas
tomadas tão drasticamente
que eu ainda me vejo de ressaca
pelos próximos 90 dias.
Que eu ainda me vejo
com infecção no estômago
como se o tivessem arrancado de mim
e eu estivesse correndo por aí sem um órgão
sem ao menos ter ficado uns dias de repouso.

Ah, se não fosse todo esse sangue estancado.

O problema maior é toda
essa tua maldita arcária dentária
enorme e branca
que eu tenho vontade de meter o martelo
já que não posso lambê-la
numa quarta-feira à tarde em local público.

Ah, se não fosse toda essa má vontade
de viver pela metade
e meu martelo guardado
na prateleira mais alta de casa.

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