Arquivo do mês: junho 2014

Antes da hora

Aquela vontade destilada
com gosto de silêncio
na ponta da língua
de tanto guardar as palavras
que eu engoli durante
as 74 horas que você ficou
calado.

Sabe-se lá onde.

Durante as 74 horas que
9 pratos quebrados no chão
furavam a sola dos meus pés,
enquanto eu quebrava outros 12
pra ver se eles se transformariam
em horas diminuídas .

Ou quem sabe assim
transformassem as 74 horas
em 74 tocadas de campainha,
pra eu abrir logo a porta
porque saudade é pior
que caco de vidro na sola do pé.

Afinal, eu sabia que você gostava de Beagá
e quem sabe esfriar a cabeça colaria
os 9 pratos e as 74 horas quebradas
que eu poderia ter passado dormindo
até você ter a decência de voltar e dizer
que não voltaria mais.

(Ou que comprou uma pá
pra jogar os cacos fora)

Pena termos o azar
de deixar o azar bater a nossa porta,
e fazer as semelhanças ruins
serem maiores que a diferenças boas.

Logo a gente, tão orgulhoso
que não dá o braço a torcer
nem por 9 pratos de 9 cidades do Sul,
nem por 12 pratos de poemas da Lapa,
nem por cacos escondidos
que vão ficar atrás dos móveis
até você infelizmente ir
e deixar alguém vir morar aqui.

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1 comentário

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Eliza,

eu queria te presentear
com qualquer coisa magnífica
que refletisse pelo menos
1/3 de você.

teria de ser qualquer coisa sem escrúpulos,
sem dogmas, sem regras
sem medo como-se-medo-não-fosse-humano
sem dor como-se-dor-não-fosse-humano

teria que vir
com aquele amor imenso que você tem
por todos os sentimentos que habitam em ti.

(e que habitam em mim
e se respeitam
mesmo sendo opostos.
graças a você
que os regou
todo sábado de manhã –
que virou chuva
pra pingar a vida inteira.
aliás, obrigada.)

teria que ser qualquer coisa
com cheiro de velho
que não dê espirros.
qualquer coisa
com páginas marcadas
de dedos sujos de café
e grifos a lápis
com os mesmos sentimentos riscados.

qualquer coisa como uma flor,
ou uma nuvem que não tem
forma exata.

qualquer coisa bonita.

(feliz aniversário atrasado, sua linda.)

 

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2:25 am

Ao som de Caetano Veloso – Qualquer Coisa

Prédio só é tédio
pra quem não consegue ver Maria
no terceiro andar
com o João do quinto
enquanto ele deveria
estar esperando Tereza
que foi visitar a tia
em São Paulo e deixou
Joana na casa da Luísa
do sétimo
que brincam acordadas
com luzes baixas
até as três da madrugada
sabe-se lá de quê.

Enquanto o Marcelo
tá com a tal insônia
tentando escrever qualquer coisa
pra ex-namorada
implorando seu perdão por tê-la
traído com a Gabriela,
filha do João do quinto andar
que tem a quem puxar.

E no décimo,
Bárbara mal pode andar
porque acabou de perder o avô.

A Lua e eu observamos
as luzes acesas nas janelas
e ficamos contentes
por não sermos as únicas de pé.

A luz acesa do outro lado
denuncia a solidão dele
olhando pra minha.
Enfeita minha noite
e me faz companhia,
seja lá com quem.

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