Arquivo do mês: agosto 2014

O que não cabe na mala

É sempre a sensação
de deixar um pouco de mim
aqui
e só levar pra lá
o que couber

Às vezes,
deixar o essencial
pra ter porquê voltar

Outra,
levar o amor em potes
de purê de batata
pra aguentar ficar

Se eu pudesse,
sumiria com a BR
e juntaria duas cidades
numa só.

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A pesar

Eu ando carregando nas costas
uma saudade que tem
o peso de uma rocha
e de todas as coisas
que eu te digo
todos os dias
em pensamento torcendo
pra você ter o dom
da telepatia.

Torcendo pra você entender
todos os sinais sutis
que eu te mando
quase explodindo por dentro
de tanto gritar,

que só não grito por fora
porque…
porque sei lá.

Mas voltando a falar da saudade,
ela é daquelas ao contrário:
quanto mais te vejo
mais se acumula.

Uma saudade doida, vadia.

Já consigo ver nos reflexos
das janelas e dos carros
que minha coluna tá envergada
de tanto que ela pesa.

Não sei o que fazer.

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II

tendo só

e o pó,
tendo a ser
ninguém
mais.

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Eu gosto do seu algodão

Ao som de “Sobre Canecas e Chá – Leo Fressato”

O amor que eu sinto por você
é amor de meia quente
pós banho no inverno.
De pão saindo
quentinho da padaria
direto pro saco de papel
que aquece nossas mãos
às 6:30 da manhã.

Amor de correio secreto
em festa junina do ensino médio,
de abraço orgulhoso de mãe.

Amor que não cobra,
que não sente ciúmes,
mas que também não espera
reconhecimento.

– apesar de reconhecer
suas blusas de frio
a longa distância –

E talvez, só talvez
eu até demonstre
1/4 dele
quando você for no meu,
só pra eu pegar
qualquer uma delas
pra minha coleção.

Mas não!
não a guardaria na gaveta
de amores antigos,
de amores doídos,
de amores estranhos.

A sua, como você,
penduraria num cabide
pra cheirar as mangas
todos
os
dias.

Mas sem amassá-las
ou esperar que estejam
sempre limpas.

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Atenção para o sinal amarelo

 Ao som de We can work it out

Às 1:47 a cidade parece um gigante que dorme. Olhando pela janela, as ruas lá fora iluminadas pelas luzes amarelas, vejo como o asfalto subindo e descendo como nosso peito, no ato de inspirar e expirar. Consigo ver daqui a neblina pairando por ele, parece que saiu de cada prédio, mesmo daqueles muitos de luzes apagadas – ideias fantasiadas pro dia seguinte, por mais que por fora pareçam só brumas.

Um carro acabou de passar por ali. Vai lentamente virando a esquina até que estaciona. Vejo que a porta se abre e sai uma pessoa pisando na ponta dos pés, abrindo o portão com toda a maciez e calma que uma palma da mão pode ter. Devia estar tentando não fazer muito barulho pra não acordar a família, os filhos, o marido, a solidão.

Olhando daqui de cima, a cidade me acalma. Eu sei que as luzes amarelas e o silêncio da rua são passageiros – de 6 a 8 oito horas de sono, às vezes até muito menos. Mas, estranhamente, ter a certeza de que no dia seguinte essas ruas vão estar congestionadas e as pessoas apressadas – onde a maioria mal te olharão nos olhos – , me consola.

Às vezes eu tenho a ilusão de pensar que meu espírito fica em paz é na natureza, no campo, na roça sem muita expectativa a não ser descansar o almoço na rede da varanda, mas a cidade é muito mais parecida comigo. Eu sou do bairro mal projetado, das faixas de pedestres, do beco sem saída, das rachaduras dos prédios, do pedacinho de planta que insiste em nascer ali naquele canto de concreto, do almoço corrido, da pressa pra aproveitar o sinal verde, das esmolas dos últimos minutos de sono pela manhã antes acordar atrasada… sou de uma ou outra construção de arquitetura neoclássica que insiste em ficar no meio desse monte de prédio-moderno-igual- diferente-só-pela-cor-da-tinta-desbotada. Sou das casas bonitas que eu queria-morar-ali. Sou da esquina onde as pessoas se encontram todos os dias e não sabem seus nomes. A paz da natureza me é momentânea, mas me agonia, assim como tudo que é lento e silencioso demais. Pacífico demais.

Porém, há algo na dinâmica das pessoas que me tira a vontade de encontrá-las e por isso acabo perdendo a vontade de atravessar a cidade pra vê-las, por mais que eu as ame e precise de todas. Há algo nesse ir e vir incessante entre íntimos que me apavora, me deixa sem ar e me tira o sono, me desanima, me deixa desacreditada no amor. Mas, quando olho pra mim, vejo que vou e volto tanto quanto eles. Que sou tão inconstante quanto eles, quanto essa nova rota que se criou por conta da obra na outra esquina, quanto ao senhor da casa verde a três quarteirões daqui, que ora pára o carro pra eu atravessar a rua e ora quase me atropela.

E essa confusa homogeneidade é a minha paz de espírito.

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