Atenção para o sinal amarelo

 Ao som de We can work it out

Às 1:47 a cidade parece um gigante que dorme. Olhando pela janela, as ruas lá fora iluminadas pelas luzes amarelas, vejo como o asfalto subindo e descendo como nosso peito, no ato de inspirar e expirar. Consigo ver daqui a neblina pairando por ele, parece que saiu de cada prédio, mesmo daqueles muitos de luzes apagadas – ideias fantasiadas pro dia seguinte, por mais que por fora pareçam só brumas.

Um carro acabou de passar por ali. Vai lentamente virando a esquina até que estaciona. Vejo que a porta se abre e sai uma pessoa pisando na ponta dos pés, abrindo o portão com toda a maciez e calma que uma palma da mão pode ter. Devia estar tentando não fazer muito barulho pra não acordar a família, os filhos, o marido, a solidão.

Olhando daqui de cima, a cidade me acalma. Eu sei que as luzes amarelas e o silêncio da rua são passageiros – de 6 a 8 oito horas de sono, às vezes até muito menos. Mas, estranhamente, ter a certeza de que no dia seguinte essas ruas vão estar congestionadas e as pessoas apressadas – onde a maioria mal te olharão nos olhos – , me consola.

Às vezes eu tenho a ilusão de pensar que meu espírito fica em paz é na natureza, no campo, na roça sem muita expectativa a não ser descansar o almoço na rede da varanda, mas a cidade é muito mais parecida comigo. Eu sou do bairro mal projetado, das faixas de pedestres, do beco sem saída, das rachaduras dos prédios, do pedacinho de planta que insiste em nascer ali naquele canto de concreto, do almoço corrido, da pressa pra aproveitar o sinal verde, das esmolas dos últimos minutos de sono pela manhã antes acordar atrasada… sou de uma ou outra construção de arquitetura neoclássica que insiste em ficar no meio desse monte de prédio-moderno-igual- diferente-só-pela-cor-da-tinta-desbotada. Sou das casas bonitas que eu queria-morar-ali. Sou da esquina onde as pessoas se encontram todos os dias e não sabem seus nomes. A paz da natureza me é momentânea, mas me agonia, assim como tudo que é lento e silencioso demais. Pacífico demais.

Porém, há algo na dinâmica das pessoas que me tira a vontade de encontrá-las e por isso acabo perdendo a vontade de atravessar a cidade pra vê-las, por mais que eu as ame e precise de todas. Há algo nesse ir e vir incessante entre íntimos que me apavora, me deixa sem ar e me tira o sono, me desanima, me deixa desacreditada no amor. Mas, quando olho pra mim, vejo que vou e volto tanto quanto eles. Que sou tão inconstante quanto eles, quanto essa nova rota que se criou por conta da obra na outra esquina, quanto ao senhor da casa verde a três quarteirões daqui, que ora pára o carro pra eu atravessar a rua e ora quase me atropela.

E essa confusa homogeneidade é a minha paz de espírito.

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4 Comentários

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4 Respostas para “Atenção para o sinal amarelo

  1. Banal nem sempre é banal. Só quando negativamente banalizado, isto é, irresponsavelmente, inconsequentemente, de modo que coloque o sujeito-ator faça algo que, de propósito, coloque o sujeito-receptor em (risco de) degrado. Li e entendi “banal” como se lesse “trivial”. O trivial não é banal: é visto e entendido por olhos desatentos ou despreparados. O trivial pode ser uma fonte pra tantas criações de belezas como o extraordinário, atípico, incomum. Mexer com o trivial não é de qualquer jeito que se faz. E o texto ali em cima, falando sobre trivialidade, não é trivial e, logo, pelo menos pra mim, foi/é fonte de criações de belezas, a exemplos de alguma tranquilidade e leveza de espírito que sinto agora, e sei que levarei elas na minha lembrança por horas mais vivamente e dias, fragmentariamente. Tay, parabéns. 🙂

  2. Bá, o primeiro parágrafo é ótimo.

  3. Bom sono!
    “ideias fantasiadas pro dia seguinte, por mais que por fora pareçam só brumas”. Isso é muito bom, transporte do que se vê cmo um reflexo do trabalho da mente humana, quase como se Magia fosse, quase.
    “Um carro acabou de passar por ali. Vai lentamente virando a esquina até que estaciona. Vejo que a porta se abre e sai uma pessoa pisando na ponta dos pés, abrindo o portão com toda a maciez e calma que uma palma da mão pode ter. Devia estar tentando não fazer muito barulho pra não acordar a família, os filhos, o marido, a solidão”. Porque tu te delonga tanto na descrição de eventos banais? Banalidade demais entedia e tira o poder do final: ‘fazendo pouco barulho, tentando não acordar a solidão’.

    Bom, basicamente, o texto é sobre como tu ama e odeia a cidade, certo?

    • Ah, eu gosto da banalidade… faz parte da vida.
      E o texto é tão pequeno que não acho que eu tenha me demorado tanto ali como você diz. Minha intenção foi mostrar o quanto eu estava atenta a todos os passos da rua naquela hora. 🙂

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