Arquivo do mês: setembro 2014

Ainda bem que você não foi

“No need for talking, I already know
If you want me, why go?”

Eu percebi que te amava quando, hoje, depois que cheguei em casa cansada, ter tomado um banho quente e deitado na cama, comecei a ler seus poemas pra amores do passado- que você, assim nos conhecemos, me mostrou – e a cada metáfora sentia meu rosto esquentar, tivesse um espelho na minha frente veria como fiquei vermelha de ciúmes de não ter te conhecido antes delas. Ou de toda poesia que você inspirou pra elas.

Eu percebi que te amava quando, depois de você não ir no nosso-último-encontro-que-você-não-foi, me encontrei sem ânimo nenhum naquele bar escuro, naquela noite que lembro que senti que já não fazia sentido nenhum estar ali. Mesmo quando tocavam alguma música dos Beatles no palco, mesmo com uma bandeja de batatas fritas que um estranho colocou na nossa frente e disse que eu podia comer, eu só queria estar em algum lugar que não fosse ali, mas que fosse o mais longe possível de você.

E percebi que te amava – e nessa hora, confesso que percebi já pensando num jeito de desperceber – quando eu, ainda naquele bar, olhei a chuva lá fora e resolvi voltar pra casa andando. O plano era pegar uma gripe, infecção na garganta, febre alta e morrer na noite seguinte, pra você ficar com peso na consciência e passar o resto dos dias escrevendo poesias sobre arrependimentos do que não foi, amores que poderiam ter sido, a vida que você podia ter tido ao meu lado, a tristeza da minha ausência, a sua angústia, o último beijo que você não deu porque não quis e agora se arrepende amargamente, sua insônia eterna que isso causou. Queria que você se transformasse num desses poetas que vai descascando a alma de quem o escuta de um jeito que, a cada verso lido, todos iriam morrendo pouco a pouco.

(Cena:

Você fazendo torradas às nove da manhã, ainda com sua samba canção e sem camisa, chamando sua empregada Sônia pra ouvir um novo poema que veio da insônia da última noite. Educada, elogiaria as suas métricas que tampouco entende, mas percebe a sonoridade, e logo após agradecer, estaria espatifada no chão.

Você ligando desesperado pra ambulância.

Todos desviando de você no hospital, porque tamanha era a sua nuvem negra de remorso, matava toda vida por onde você passava.)

Você seria tão mundialmente conhecido por causa do seu drama mortal que todos os rádios e programas de televisão, sempre que te citassem em algum momento, alguém  da plateia teria uma morte súbita a cada verso lido, às vezes só de ouvir seu nome, de tanto medo. Assim, os humanos pouco a pouco seriam extintos até que só restaria você no mundo.

E você morreria de solidão.

Assim como eu morri naquela noite.

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27 de setembro

O relógio central, estragado
o semáforo, estragado
as pessoas descendo do ônibus,
estragadas

o porteiro mal vê
quem entra e quem sai
as pupilas estragaram
seus óculos

o tio do açaí
blindou sua kombi

a catraca estragada não vai
mais sentir tanta gente
ficar presa nela

tenho certeza que a calçada
vai ter
oitocentos e trinta e três
noites de insônia

a ciclovia vai querer
mudar de cor

porque
o vermelho
se tornou feio
depois que você foi;

Acho que morri
um pouco ali também.

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De vez em quando

Quando tudo fica meio
enguiçado
nas minhas pupilas passam os
trinta e oito mundos
em que eu não estive
nas suas.
Os trinta e oito prazeres
que eu sequer sabia
da existência,
dá até azia
de ver passar.
Eu devia era estar
criando um novo
sistema de números,
ou quem sabe
um novo alfabeto
com letras que só a gente
entenda,
ou quiçá
um mundo novo,
Onde não exista
as trinta e oito cenas
em flash
na minha cabeça
que pioram minha labirintite,
que me deixam até tonta,
pois fugiram do seu passado
e se transformaram
nesses trinta e oito
graus de silêncio.
E só Deus sabe
quando volta a ter
música de novo.

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Pela ponta

ao som de jean-luc ponty

você me vira
ao verso

pela vista da janela
p e l a d a
à rua
a olhar as luzes
tremeluzirem

tremem no meu cérebro
órbitas a trezentos e sessenta
um zigue-zague
nos ouvidos

me lembram do
prazer de todos os
orifícios

os que dão
entradas
a um caminho
lá lá lá
dentro

destes que
escorregam
por entre os poros
penetrando até
as pontas
do último fio
mais longo
de cabelo

e eu descubro
que seus versos
são meus versos
certos

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A coisa invisível

Noite passada
a solidão entrou
pena janela que você
deixou aberta
quando terminou de
fumar seu cigarro
e foi embora.

Se apossou do apartamento
inteiro que,
vazio, não fazia
nenhum ruído.

Dormi com a tv ligada
por sentir falta
de vida,
e por medo de
perder a minha,
dei duas voltas
com a chave
na fechadura.

As coisas ficam
um tanto estranhas
sem ninguém aqui.
Qualquer segurança a mais,
diminui a neura
que se instala.

É como se eu
estivesse sujeita
a uma conversa na sala
com todos os demônios
adormecidos no meu peito.

(Passo rápido por ela,
evitando as tais visitas).

Fecho os olhos
e me cubro da cabeça
aos pés.
Si-lên-cio.
Si-len-ci-o.
Euprecisodormir.

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Pra guardar no bolso

Procuro um poema
que descreva a beleza
do preto&branco
girando
no apartamento
ao som de um violão baixinho
falando de amor
e chás.

Procuro um poema
qualquer,
que descreva o ar
amarelo,
e o barulho do silêncio
entre vários espaços vazios.

Procuro um poema que
agradeça a nós mesmos
pela incrível genialidade
de poder
criar espaços.

(Há de se concordar
que Deus foi muito genial
na criação de nossos cérebros).

Procuro um poema
que explique
os tantos focos
que eu posso ter
e os tantos mundos
que eu posso ver
num girar de cabeça,
que chego a ficar tonta
e quase caio no chão,

(e se caio,
fico ali mesmo
pra contemplar o céu).

Quando encontrá-lo,
farei ele de Lua,
farei dele
meu satélite
minha saia rodada.

Ou diluo em água
pra poder beber,
beber,
beber,
até não poder beber mais.

Pra beber mais um pouco
e vomitar tudo em flor.

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(pintura de Alex Egea)

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