Ainda bem que você não foi

“No need for talking, I already know
If you want me, why go?”

Eu percebi que te amava quando, hoje, depois que cheguei em casa cansada, ter tomado um banho quente e deitado na cama, comecei a ler seus poemas pra amores do passado- que você, assim nos conhecemos, me mostrou – e a cada metáfora sentia meu rosto esquentar, tivesse um espelho na minha frente veria como fiquei vermelha de ciúmes de não ter te conhecido antes delas. Ou de toda poesia que você inspirou pra elas.

Eu percebi que te amava quando, depois de você não ir no nosso-último-encontro-que-você-não-foi, me encontrei sem ânimo nenhum naquele bar escuro, naquela noite que lembro que senti que já não fazia sentido nenhum estar ali. Mesmo quando tocavam alguma música dos Beatles no palco, mesmo com uma bandeja de batatas fritas que um estranho colocou na nossa frente e disse que eu podia comer, eu só queria estar em algum lugar que não fosse ali, mas que fosse o mais longe possível de você.

E percebi que te amava – e nessa hora, confesso que percebi já pensando num jeito de desperceber – quando eu, ainda naquele bar, olhei a chuva lá fora e resolvi voltar pra casa andando. O plano era pegar uma gripe, infecção na garganta, febre alta e morrer na noite seguinte, pra você ficar com peso na consciência e passar o resto dos dias escrevendo poesias sobre arrependimentos do que não foi, amores que poderiam ter sido, a vida que você podia ter tido ao meu lado, a tristeza da minha ausência, a sua angústia, o último beijo que você não deu porque não quis e agora se arrepende amargamente, sua insônia eterna que isso causou. Queria que você se transformasse num desses poetas que vai descascando a alma de quem o escuta de um jeito que, a cada verso lido, todos iriam morrendo pouco a pouco.

(Cena:

Você fazendo torradas às nove da manhã, ainda com sua samba canção e sem camisa, chamando sua empregada Sônia pra ouvir um novo poema que veio da insônia da última noite. Educada, elogiaria as suas métricas que tampouco entende, mas percebe a sonoridade, e logo após agradecer, estaria espatifada no chão.

Você ligando desesperado pra ambulância.

Todos desviando de você no hospital, porque tamanha era a sua nuvem negra de remorso, matava toda vida por onde você passava.)

Você seria tão mundialmente conhecido por causa do seu drama mortal que todos os rádios e programas de televisão, sempre que te citassem em algum momento, alguém  da plateia teria uma morte súbita a cada verso lido, às vezes só de ouvir seu nome, de tanto medo. Assim, os humanos pouco a pouco seriam extintos até que só restaria você no mundo.

E você morreria de solidão.

Assim como eu morri naquela noite.

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