Dos dias em que eu não encosto em você

Ao som de Lucifernandis

É estranho pensar no quanto eu ando por essas ruas querendo te encontrar e fingir supresa, um acaso agradável. Na minha cabeça passam cenas do seu olhar de sobrancelhas arcadas pra mim, olhar de quem tem muito o que falar mas não fala sabe-se lá porquê. Olhar de quem tem um coração enorme que mantém fechado, tão enorme que ninguém desconfia, e quando desconfia você foge. Por que você foge? Dá pra te imaginar em casa programando que tipo de ser-humano-mecânico-frio-que-já-sofreu-muito-por-amor-e-por-isso-mesmo-esconde-bem você vai ser lá fora na frente do mundo. E o mundo acredita, porque é burro. Acredita porque não conheceu seu toque e sua textura da face e das mãos – onde a gente tem a pele mais lisa, e a sua é incrivelmente sem atrito. E porque eu conheci a sua textura do lado de dentro de mim e do lado de dentro de você, eu não aceito a mesma que você usa pra tocar eles. Eu quero a textura doce, a textura que paraliza, que me faz fechar os olhos e ver o mundo por fora das minhas pálpebras num contorno de luz colorida. E quero a sua textura de olhar doce e pequeno… não desses olhos despretensiosos.

Sem querer eu vi nascer um poema no desprentesionismo do seu olhar-que-olha-e-não-vê-de-tanto-já-ter-visto-tanto e acabei achando em mim um lugar pra nos cabermos serenamente um no outro: um quarto com chão de madeira, alguns livros amarelados pelo tempo e cheios de poeira, mas com boas histórias – que te fazem espirrar se não lê-las com cuidado. Logo quando abrimos a porta, vemos uma cama quente e um blues que entra com o sol toda vez que a janela abre com a força do vento. Nós nunca trancamos a janela porque pensamos que a Lua pode descer a qualquer momento da madrugada pra descansar em alguma de nossas saboneteiras… cabe ela inteira, mais na sua que na minha.

Lembro-me ainda do dia que você foi embora pela última vez. Como quem sai pra comprar o azeite que falta pro almoço, saiu da mesa sorrindo, deixando todos conversando ali, e se dirigiu em direção a porta dos fundos. Os que ficaram se entreolharam silenciosos, porque sabiam que vez ou outra tinha dessa mania de deixar um vazio surgir do nada deixando em todos o vácuo. Eu não te segui porque você sempre deu passos mais largos que os meus e eu sempre fiquei muito cansada de sempre ter que correr, mas algo me diz que você andou pela calçada xingando mentalmente os carros que não paravam na faixa de pedestre, o barrigudo careca que embaixo do sol quente fazia propaganda da agência de carros para qual trabalhava, onde compram toda essa paciência? a paciência das pessoas com uma vida chata. Dos tempos em que julgava ser preso, essas coisas não faziam tanto estardalhaço. Agora, qualquer coisa que ameaçasse sua liberdade era dita como Feia.

Como naquele bar em que recusou um olhar de afeto de quem encontra um amor passado – não quis saber de memórias, não quis saber como ela andava, se conseguiu realizar ou não todos os seus sonhos não era problema e nem curiosidade sua. Recusava palavras de quem pedia pra entrar com passos calmos e olhares curiosos daquela curiosidade-de-alma, que só quem quem te amou muito e sofreu muito com por isso sabe ter. Como se evitar amor fosse evitar vida. Como se evitar amor fosse evitar liberdade. Mas não sabia que liberdade imposta é pior que cela de ferro, é pior que querer correr e ter as pernas debilitadas…

O dia ia passando e nada de você voltar. Quando começaram a ficar preocupados, tentei acalmá-los dizendo que você estaria de volta em duas semanas ou três. Como uma criança que acredita que apontar estrelas no céu faz nascer verrugas, você viria de uma cidade de estrangeiros e semi conhecidos, contando sobre histórias vividas mais na sua cabeça que na sua frente… e eu ouviria todas como criança que ouve histórias antes de dormir. Eu ouviria todas fingindo que você realmente precisaria ir tão longe buscá-las, e até te oferecia dinheiro pra ajudar nas próximas passagens. Te indicaria os melhores bares com as melhores cachaças… na próxima viagem eu posso ir? perguntaria mesmo sabendo que não.

E teu coração continuaria a não amolecer com os meus olhos tão atentos a você, e eu continuaria com o meu sangrando em mãos, com um amor novinho em folha dentro que você não pegou só porque não quis. Tentaria acalmá-lo com essas mesmas mãos que brigam entre si pra não tocar a sua pele e não entrar no trago do seu cigarro enquanto ouço essas histórias chatas…

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1 comentário

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Uma resposta para “Dos dias em que eu não encosto em você

  1. Luã

    Achei lindo e tocante, Tay. Me vi um pouco no conto, isso ajuda no toque poético! Parabéns

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