Arquivo do mês: novembro 2014

O peso desse relógio

Eu pedi ao tempo
tempo dos dias
de hoje
do agora
dessa gente
dessa cidade
e dessa gente da cidade
do buraco da calçada
do tropeço ao me ver
mais longe de onde
eu queria estar

do sinal vermelho
do sinal verde
do andar lerdo
do andar apressado
do andar que esbarra
da catraca que trava
do atraso e da antecedência
e do atraso da antecedência
da insônia do sono
do sono que desperta os sonhos
que eu não quero ter

eu pedi ao tempo
um tempo de mim
e desse ir e vir
traçado
e ganhei um não
bem dado

vida estranha
essa que projetei
ou que me foi projetada

o que é meu
não me deixa descansar
de quem eu mesma
escolhi ser.

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Que tal?

Ao som de 5 a seco – feliz pra cachorro

Hoje eu podia ser
o amor da sua vida
no fim de semana
inteiro,

na segunda-feira
a gente voltava
pra nossa vidinha de sempre
e procuraria alívio
dentro dessa
sensação do agora,
meio assim

deixando o vento
jogar no rosto
qualquer música
ou tela
que nos faz crer
que não há necessidade
de farmácias ou drogarias,

só a arte salva
nossa loucura
das partes obscuras
que eles dizem ter no cérebro.

E não há amor
ou desamor
que passe imune
por elas,

e não há amor
ou desamor
que saia da mesma cor
delas.

E eu, que já perdi
a conta de quantas vezes
nem a cor amarela
clareou o fim das curvas,

parei de contar e
desenhei lá
um sol enorme
e bem amarelo.

Se for preciso
eu desenho mais um,
ou me entrego
mais dois ou três dias
a você.

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Elevador

Bonita
é essa sua respiração
tensa
de quem queria ser
qualquer teia de aranha
ou quem sabe a própria aranha
do teto desse elevador
os botões
pros outros andares
ou quiçá os
próprios andares enfim

qualquer ser que não pertencesse
ao seu corpo
que eu já comi
lambi
e deixei digitais que não
vão sair com esse
seu sabonete amarelo
de mercado

Bonita
é essa respiração
presinha da silva de
bem-sei-como-você-beija
e bem sei que
você beijaria
com gosto de Bom Dia
se eu deixasse
de novo

Bonita
é a nossa historinha
em quadrinhos
que eu ainda não pintei

e nem vou pintar.

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Ao som de Nessa cidade – Vanguart 

O problema
de você ter entrado
numa roda da vida
com relógio usual,
é que o meu
no sentido anti-horário
não nos deixa estar
no mesmo
estar

Então a gente meio que
nunca se encontra,
somos cada um
em uma ponta

distante
e oposta.

E quando pareço
atenta à sua conversa
confusa sobre o
futuro,
(tão daqui a anos
que não vejo o porquê
de perder o agora),

na verdade estou
sentindo saudade de
um tempo tão
lá atrás
que também não vejo
sentido perder
o agora.

A ilusão do tempo
certo era:
você, com esses olhos
que refletem
órbitas que nem
cabem no universo
e brilhos com cores
nunca misturadas,
acho que de tão
escuros que eles são.

Confesso que me
aproveitei da tua boca macia
e entrei pela portinha
da frente,
me pendurei nas
tuas amígdalas
que foram amigas e me
deixaram balançar até saltar
nas tuas mais profundas
entranhas,
e de lá, arranquei
alguma coisa gosmenta
que estava faltando aqui.

Pena que não digeri bem.

E vomitei ao
te ver
rodando tonto nesse
mundo mais tonto
ainda,
estragando seu cabelo
fazendo o topete que
todo mundo tem…

… melhor deixar
você aí
se eu quiser
voar mais
além.

(inspirada em “Dama da noite”, Caio Fernando Abreu)

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