Arquivo do mês: fevereiro 2015

la petite mort

você tem algo
que pára o tempo
na curva do pescoço,
exatamente onde
as pontas dos meus
dedos congelam
quando encontram
sua pele em fogo

você tem algo
que faz qualquer música
ter o carinho da voz
do caetano,
exatamente no momento
em que diz que nao gosta
enquanto eu rio, porque
seus dedos pra lá
e pra cá ao vento,
fazem o movimento
do transa

você tem algo
que faz surgir
uma brisa infinita
no calor dessa cidade
– quando pisca
os olhos devagar,
quase vejo as pessoas
apontando nas janelas
agradecendo sua serenidade

(que vem misturada com
algo que me deixa
inquieta, como se eu
tivesse te encontrado
nesse mesmo lugar
em uma vida não
tão passada…)

você tem algo que traduz
até o que eu não queria
dizer

tão
estranhamente
urgente.

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized

sobre as pregas do seu olho

em câmera lenta:
saiu das mãos
lento ca
indo
deu pra ver
que seus olhos
chegaram mais rápido
ao susto de ouvir
o baque do vidro
no chão
e todos os cacos
espetando nossas pernas.

deu pra ver
as pregas do seu olho
forte fechado travado
acho que travou
mais coisa aí

eu te disse
pra não brincar
de amor quando
não era eu
te disse pra
errar a dor
de outra era
eu te disse
melhor deixar
o tempo ser dono
do que não cabe
no nosso sono.

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized

Quarta-feira de cinzas com tudo queimando por todos os lados

Sua fantasia era a base de penas amarelas e suas pálpebras vestiam porpurina azul. Veio depois de três pedidos desesperados diante de um espelho de um bar que eu não lembro o nome. E veio como que pra acalmar o desespero que parecia criança, fazendo pirraça em plena fantasia, paixão e samba. Ela tinha um cheiro doce e algo no seu toque me fazia não querer sair dali, algo no seu toque me puxava pra dentro dela começando pela parte de dentro de mim. E ela me envolviva como a brisa da manhã de quem acorda cedo corre em meio às árvores…

Mas seu beijo era seco. Tinha um gosto misturado de algo tentando ser amor mas que não conseguia chegar lá, como algo que precisava apenas de uma gota pra ser completo. Como aqueles vultos, que a gente jura que viu mas que não eram nada… e de repente eles passam de novo mas continuam não sendo nada. Mas mesmo assim, tinha um gosto infeliz de quero-mais nos lábios dela. E eu, que nunca fui de me privar dos prazeres que meu corpo pedia, mordi, lambi, beijei-a por inteira. Ali ficaram todas as minhas digitais e saliva. Logo viria a ressaca, logo não lembraria o nome dela e ela não lembraria o meu nome, mas nós duas estávamos no mesmo lugar e na mesma ocasião pedindo exatamente a mesma coisa, como peças de um quebra-cabeça que perfeitamente se encaixam – eu procurava algo pra fingir ser, ela adorava fingir. E de repente: como tá? como foi lá? como se sente em relação ao mundo? você-tem-algo-nesse-olhar-que-entrega-um-coração-que-cabe-certinho-nos-meus-dias-tão-corridos.

Ela fingia tão bem que meu medo era seguir acreditando que de fato fosse.
E eu acho que ainda é.

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized

E agora?

ao som de play the part – little joy

é preciso
respirar fundo
depois de duas ou
três voltas rápidas
da vida vindas
sem aviso
sobre nossa cabeça

parecia que dessa vez
o depois
não ia ter esse gosto
do ontem no agora,
esse sabor de pão dormido,
de café gelado
que de nada revigora.

quase cheguei a acreditar
que pegaria aquela curva
pra só pensar
no dia da volta,
mas calhou que a espera
veio a ser tão cansativa
quanto andar sozinha
sem rota.

eu só queria dizer
que faltou um café…
e a décima primeira ida
num lugar onde
ninguém vai.

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized