II – cheiro

[I – olhos]

por culpa sua
lidei com alguns
emaranhados de
pensamentos tortos
desde a última vez
que eu senti o cheiro
do seu condicionador
pra quem tem
vertigem de suicídio,
acho que escalo bem
os teus muros altos
cheios de farpas.
só não passou
aquele tremer-pernas
diante do elevador
que não chega nunca
no segundo andar
e a vontade de
te ver de novo,
outra vez,
amanhã.

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sobre seus freios

pego todos os
seus restos
de um ontem
e deixo contigo
nas tuas fronteiras

não aceito mais
suas curvas
de gente
blindada
assim como
também não quero
suas flores
de plástico
sobre a mesa
da minha sala

não há som no rádio
não há gota pingando
na pia no silêncio
de um domingo

qualquer resquício de lar
já não mora mais aqui

e eu também não.

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I – olhos

eram duas nuvens
pretas
e brilhantes
que refletiam
o desejo
escondido
em mim
eram duas bolas
que se mostravam
tão serenas
que todo relógio
parava no
piscar
dessas duas bolas
mágicas
mirando
o meu
amor
teu

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ish

dia desses encontrei
o fio estourado
do seu ukulele
e me veio aquela rotina
fora de hora
de cafés da tarde, patês
e algo que
até hoje
nem deus decifrou
o que era.

estourou na casa
um silêncio,
desses que tem um grito
tão contínuo
que qualquer parada
é incômodo

não lembrava nossa música,
nem o barulho do seu carro
às seis,
muito menos
som de passarinho.

só sei que o calei de novo
como se nada
tivesse acontecido,

pela quarta
ou quinta vez.

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la petite mort

você tem algo
que pára o tempo
na curva do pescoço,
exatamente onde
as pontas dos meus
dedos congelam
quando encontram
sua pele em fogo

você tem algo
que faz qualquer música
ter o carinho da voz
do caetano,
exatamente no momento
em que diz que nao gosta
enquanto eu rio, porque
seus dedos pra lá
e pra cá ao vento,
fazem o movimento
do transa

você tem algo
que faz surgir
uma brisa infinita
no calor dessa cidade
– quando pisca
os olhos devagar,
quase vejo as pessoas
apontando nas janelas
agradecendo sua serenidade

(que vem misturada com
algo que me deixa
inquieta, como se eu
tivesse te encontrado
nesse mesmo lugar
em uma vida não
tão passada…)

você tem algo que traduz
até o que eu não queria
dizer

tão
estranhamente
urgente.

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sobre as pregas do seu olho

em câmera lenta:
saiu das mãos
lento ca
indo
deu pra ver
que seus olhos
chegaram mais rápido
ao susto de ouvir
o baque do vidro
no chão
e todos os cacos
espetando nossas pernas.

deu pra ver
as pregas do seu olho
forte fechado travado
acho que travou
mais coisa aí

eu te disse
pra não brincar
de amor quando
não era eu
te disse pra
errar a dor
de outra era
eu te disse
melhor deixar
o tempo ser dono
do que não cabe
no nosso sono.

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Quarta-feira de cinzas com tudo queimando por todos os lados

Sua fantasia era a base de penas amarelas e suas pálpebras vestiam porpurina azul. Veio depois de três pedidos desesperados diante de um espelho de um bar que eu não lembro o nome. E veio como que pra acalmar o desespero que parecia criança, fazendo pirraça em plena fantasia, paixão e samba. Ela tinha um cheiro doce e algo no seu toque me fazia não querer sair dali, algo no seu toque me puxava pra dentro dela começando pela parte de dentro de mim. E ela me envolviva como a brisa da manhã de quem acorda cedo corre em meio às árvores…

Mas seu beijo era seco. Tinha um gosto misturado de algo tentando ser amor mas que não conseguia chegar lá, como algo que precisava apenas de uma gota pra ser completo. Como aqueles vultos, que a gente jura que viu mas que não eram nada… e de repente eles passam de novo mas continuam não sendo nada. Mas mesmo assim, tinha um gosto infeliz de quero-mais nos lábios dela. E eu, que nunca fui de me privar dos prazeres que meu corpo pedia, mordi, lambi, beijei-a por inteira. Ali ficaram todas as minhas digitais e saliva. Logo viria a ressaca, logo não lembraria o nome dela e ela não lembraria o meu nome, mas nós duas estávamos no mesmo lugar e na mesma ocasião pedindo exatamente a mesma coisa, como peças de um quebra-cabeça que perfeitamente se encaixam – eu procurava algo pra fingir ser, ela adorava fingir. E de repente: como tá? como foi lá? como se sente em relação ao mundo? você-tem-algo-nesse-olhar-que-entrega-um-coração-que-cabe-certinho-nos-meus-dias-tão-corridos.

Ela fingia tão bem que meu medo era seguir acreditando que de fato fosse.
E eu acho que ainda é.

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