III – pele

[II – cheiro]

a minha saudade
tem nome, sobrenome
e endereço.
deixou minhas mãos com alergia
e hoje nem no bolso
eu carrego mais.

a minha saudade tem
cor, sexo e textura.
qualquer beijo
não basta pra ser
toque
e qualquer pele
não supre a vontade
de findar unhas nas palmas
até sangrar.

a minha saudade
pegou um ônibus
pra uma cidade que
eu não conheço
a rota, as horas e nem

se volta

pra pegar o eco dela
que fica fazendo
sombra
na luz amarela
do meu quarto
às uma e pouca
da madrugada.

a minha saudade é
como aquela sensação
de amputar um membro
do corpo por pura
e espontânea vontade
e sentir falta dele
mesmo assim.

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(des)conforto

você finge que
nada aconteceu
e eu finjo que
nada aconteceu
e de fato
nada aconteceu
porque nem lembro mais
do que a gente
não tava falando.

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II – cheiro

[I – olhos]

por culpa sua
lidei com alguns
emaranhados de
pensamentos tortos
desde a última vez
que eu senti o cheiro
do seu condicionador
pra quem tem
vertigem de suicídio,
acho que escalo bem
os teus muros altos
cheios de farpas.
só não passou
aquele tremer-pernas
diante do elevador
que não chega nunca
no segundo andar
e a vontade de
te ver de novo,
outra vez,
amanhã.

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sobre seus freios

pego todos os
seus restos
de um ontem
e deixo contigo
nas tuas fronteiras

não aceito mais
suas curvas
de gente
blindada
assim como
também não quero
suas flores
de plástico
sobre a mesa
da minha sala

não há som no rádio
não há gota pingando
na pia no silêncio
de um domingo

qualquer resquício de lar
já não mora mais aqui

e eu também não.

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I – olhos

eram duas nuvens
pretas
e brilhantes
que refletiam
o desejo
escondido
em mim
eram duas bolas
que se mostravam
tão serenas
que todo relógio
parava no
piscar
dessas duas bolas
mágicas
mirando
o meu
amor
teu

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ish

dia desses encontrei
o fio estourado
do seu ukulele
e me veio aquela rotina
fora de hora
de cafés da tarde, patês
e algo que
até hoje
nem deus decifrou
o que era.

estourou na casa
um silêncio,
desses que tem um grito
tão contínuo
que qualquer parada
é incômodo

não lembrava nossa música,
nem o barulho do seu carro
às seis,
muito menos
som de passarinho.

só sei que o calei de novo
como se nada
tivesse acontecido,

pela quarta
ou quinta vez.

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la petite mort

você tem algo
que pára o tempo
na curva do pescoço,
exatamente onde
as pontas dos meus
dedos congelam
quando encontram
sua pele em fogo

você tem algo
que faz qualquer música
ter o carinho da voz
do caetano,
exatamente no momento
em que diz que nao gosta
enquanto eu rio, porque
seus dedos pra lá
e pra cá ao vento,
fazem o movimento
do transa

você tem algo
que faz surgir
uma brisa infinita
no calor dessa cidade
– quando pisca
os olhos devagar,
quase vejo as pessoas
apontando nas janelas
agradecendo sua serenidade

(que vem misturada com
algo que me deixa
inquieta, como se eu
tivesse te encontrado
nesse mesmo lugar
em uma vida não
tão passada…)

você tem algo que traduz
até o que eu não queria
dizer

tão
estranhamente
urgente.

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