Arquivo da tag: cartas não entregues

Depois de um susto

eram como uma gangue de policiais
que me obrigavam a parar no tempo
e deixar que no lugar dele
fossem embora
coisas que eu julgava importantes
mas que de fato não eram

foram meu dinheiro, meus lápis de cor
o último ônibus pra casa
o último álbum do belchior
todo meu egocentrismo
meu emprego e meu lugar
num futuro só meu
porque nele,
não caberia você

eram também um novo conceito
sobre o prazer do tato
ainda não tinha no dicionário
qualquer definição de vício
que fizesse jus ao incessante
deslizar e apertar de dedos

em pele que não minha
em orelhas que não minhas
em pêlos loiros que não meus

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Tempo da confusão

Você não entende
o meu
sentir,
e quando tento me
mostrar por dentro
você expõe
o seu lado de fora,
tão frio,
que eu desisto
e sinto

e muito.

E quando penso
que melhor-assim,
sem rotinas misturadas
ou fumaça na escada,
lembro que talvez
tenha te mostrado
demais as vísceras

… e até tentaria
apagá-las da sua mente
se eu tivesse certeza
que ela de fato
lembra de alguma.

Você é um
eterno poema
incompleto,
que eu cansei
de tentar
pôr fim.

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Shhh…

A literalidade
das pessoas
mata
qualquer coração
de lua,
que só se enxerga
refletido numa água
mansa
– que saiba direcionar
os ventos que pairam por ela,
sem inundar
a mata em volta –

Embora a vontade seja
de aquarelar um
arco-íris nas costas
da sua rotina,
em vez de sentar e ver
a chuva fina pela janela
sem nenhum pincel em mãos…

… prefiro
deixar pra lá,
que um dia
(por sorte, ou não)
eu te encontro num tempo
em que nosso tempo
esteja marcado
pra fazer Sol
na mesma hora.

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artwork by Mojo Wang

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De vez em quando

Quando tudo fica meio
enguiçado
nas minhas pupilas passam os
trinta e oito mundos
em que eu não estive
nas suas.
Os trinta e oito prazeres
que eu sequer sabia
da existência,
dá até azia
de ver passar.
Eu devia era estar
criando um novo
sistema de números,
ou quem sabe
um novo alfabeto
com letras que só a gente
entenda,
ou quiçá
um mundo novo,
Onde não exista
as trinta e oito cenas
em flash
na minha cabeça
que pioram minha labirintite,
que me deixam até tonta,
pois fugiram do seu passado
e se transformaram
nesses trinta e oito
graus de silêncio.
E só Deus sabe
quando volta a ter
música de novo.

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A pesar

Eu ando carregando nas costas
uma saudade que tem
o peso de uma rocha
e de todas as coisas
que eu te digo
todos os dias
em pensamento torcendo
pra você ter o dom
da telepatia.

Torcendo pra você entender
todos os sinais sutis
que eu te mando
quase explodindo por dentro
de tanto gritar,

que só não grito por fora
porque…
porque sei lá.

Mas voltando a falar da saudade,
ela é daquelas ao contrário:
quanto mais te vejo
mais se acumula.

Uma saudade doida, vadia.

Já consigo ver nos reflexos
das janelas e dos carros
que minha coluna tá envergada
de tanto que ela pesa.

Não sei o que fazer.

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II

tendo só

e o pó,
tendo a ser
ninguém
mais.

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Eu gosto do seu algodão

Ao som de “Sobre Canecas e Chá – Leo Fressato”

O amor que eu sinto por você
é amor de meia quente
pós banho no inverno.
De pão saindo
quentinho da padaria
direto pro saco de papel
que aquece nossas mãos
às 6:30 da manhã.

Amor de correio secreto
em festa junina do ensino médio,
de abraço orgulhoso de mãe.

Amor que não cobra,
que não sente ciúmes,
mas que também não espera
reconhecimento.

– apesar de reconhecer
suas blusas de frio
a longa distância –

E talvez, só talvez
eu até demonstre
1/4 dele
quando você for no meu,
só pra eu pegar
qualquer uma delas
pra minha coleção.

Mas não!
não a guardaria na gaveta
de amores antigos,
de amores doídos,
de amores estranhos.

A sua, como você,
penduraria num cabide
pra cheirar as mangas
todos
os
dias.

Mas sem amassá-las
ou esperar que estejam
sempre limpas.

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