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III – pele

[II – cheiro]

a minha saudade
tem nome, sobrenome
e endereço.
deixou minhas mãos com alergia
e hoje nem no bolso
eu carrego mais.

a minha saudade tem
cor, sexo e textura.
qualquer beijo
não basta pra ser
toque
e qualquer pele
não supre a vontade
de findar unhas nas palmas
até sangrar.

a minha saudade
pegou um ônibus
pra uma cidade que
eu não conheço
a rota, as horas e nem

se volta

pra pegar o eco dela
que fica fazendo
sombra
na luz amarela
do meu quarto
às uma e pouca
da madrugada.

a minha saudade é
como aquela sensação
de amputar um membro
do corpo por pura
e espontânea vontade
e sentir falta dele
mesmo assim.

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I – olhos

eram duas nuvens
pretas
e brilhantes
que refletiam
o desejo
escondido
em mim
eram duas bolas
que se mostravam
tão serenas
que todo relógio
parava no
piscar
dessas duas bolas
mágicas
mirando
o meu
amor
teu

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la petite mort

você tem algo
que pára o tempo
na curva do pescoço,
exatamente onde
as pontas dos meus
dedos congelam
quando encontram
sua pele em fogo

você tem algo
que faz qualquer música
ter o carinho da voz
do caetano,
exatamente no momento
em que diz que nao gosta
enquanto eu rio, porque
seus dedos pra lá
e pra cá ao vento,
fazem o movimento
do transa

você tem algo
que faz surgir
uma brisa infinita
no calor dessa cidade
– quando pisca
os olhos devagar,
quase vejo as pessoas
apontando nas janelas
agradecendo sua serenidade

(que vem misturada com
algo que me deixa
inquieta, como se eu
tivesse te encontrado
nesse mesmo lugar
em uma vida não
tão passada…)

você tem algo que traduz
até o que eu não queria
dizer

tão
estranhamente
urgente.

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sobre as pregas do seu olho

em câmera lenta:
saiu das mãos
lento ca
indo
deu pra ver
que seus olhos
chegaram mais rápido
ao susto de ouvir
o baque do vidro
no chão
e todos os cacos
espetando nossas pernas.

deu pra ver
as pregas do seu olho
forte fechado travado
acho que travou
mais coisa aí

eu te disse
pra não brincar
de amor quando
não era eu
te disse pra
errar a dor
de outra era
eu te disse
melhor deixar
o tempo ser dono
do que não cabe
no nosso sono.

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explico

o que escrevo
é o que não digo
quando não
abraço o que
sinto

qualquer coisa
além, é
hora passando
perdida no acaso

qualquer coisa além
é qualquer coisa
que não sei

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Depois de um susto

eram como uma gangue de policiais
que me obrigavam a parar no tempo
e deixar que no lugar dele
fossem embora
coisas que eu julgava importantes
mas que de fato não eram

foram meu dinheiro, meus lápis de cor
o último ônibus pra casa
o último álbum do belchior
todo meu egocentrismo
meu emprego e meu lugar
num futuro só meu
porque nele,
não caberia você

eram também um novo conceito
sobre o prazer do tato
ainda não tinha no dicionário
qualquer definição de vício
que fizesse jus ao incessante
deslizar e apertar de dedos

em pele que não minha
em orelhas que não minhas
em pêlos loiros que não meus

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O peso desse relógio

Eu pedi ao tempo
tempo dos dias
de hoje
do agora
dessa gente
dessa cidade
e dessa gente da cidade
do buraco da calçada
do tropeço ao me ver
mais longe de onde
eu queria estar

do sinal vermelho
do sinal verde
do andar lerdo
do andar apressado
do andar que esbarra
da catraca que trava
do atraso e da antecedência
e do atraso da antecedência
da insônia do sono
do sono que desperta os sonhos
que eu não quero ter

eu pedi ao tempo
um tempo de mim
e desse ir e vir
traçado
e ganhei um não
bem dado

vida estranha
essa que projetei
ou que me foi projetada

o que é meu
não me deixa descansar
de quem eu mesma
escolhi ser.

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