Arquivo da tag: das coisas não ditas

I – olhos

eram duas nuvens
pretas
e brilhantes
que refletiam
o desejo
escondido
em mim
eram duas bolas
que se mostravam
tão serenas
que todo relógio
parava no
piscar
dessas duas bolas
mágicas
mirando
o meu
amor
teu

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ish

dia desses encontrei
o fio estourado
do seu ukulele
e me veio aquela rotina
fora de hora
de cafés da tarde, patês
e algo que
até hoje
nem deus decifrou
o que era.

estourou na casa
um silêncio,
desses que tem um grito
tão contínuo
que qualquer parada
é incômodo

não lembrava nossa música,
nem o barulho do seu carro
às seis,
muito menos
som de passarinho.

só sei que o calei de novo
como se nada
tivesse acontecido,

pela quarta
ou quinta vez.

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Dos dias em que eu não encosto em você

Ao som de Lucifernandis

É estranho pensar no quanto eu ando por essas ruas querendo te encontrar e fingir supresa, um acaso agradável. Na minha cabeça passam cenas do seu olhar de sobrancelhas arcadas pra mim, olhar de quem tem muito o que falar mas não fala sabe-se lá porquê. Olhar de quem tem um coração enorme que mantém fechado, tão enorme que ninguém desconfia, e quando desconfia você foge. Por que você foge? Dá pra te imaginar em casa programando que tipo de ser-humano-mecânico-frio-que-já-sofreu-muito-por-amor-e-por-isso-mesmo-esconde-bem você vai ser lá fora na frente do mundo. E o mundo acredita, porque é burro. Acredita porque não conheceu seu toque e sua textura da face e das mãos – onde a gente tem a pele mais lisa, e a sua é incrivelmente sem atrito. E porque eu conheci a sua textura do lado de dentro de mim e do lado de dentro de você, eu não aceito a mesma que você usa pra tocar eles. Eu quero a textura doce, a textura que paraliza, que me faz fechar os olhos e ver o mundo por fora das minhas pálpebras num contorno de luz colorida. E quero a sua textura de olhar doce e pequeno… não desses olhos despretensiosos.

Sem querer eu vi nascer um poema no desprentesionismo do seu olhar-que-olha-e-não-vê-de-tanto-já-ter-visto-tanto e acabei achando em mim um lugar pra nos cabermos serenamente um no outro: um quarto com chão de madeira, alguns livros amarelados pelo tempo e cheios de poeira, mas com boas histórias – que te fazem espirrar se não lê-las com cuidado. Logo quando abrimos a porta, vemos uma cama quente e um blues que entra com o sol toda vez que a janela abre com a força do vento. Nós nunca trancamos a janela porque pensamos que a Lua pode descer a qualquer momento da madrugada pra descansar em alguma de nossas saboneteiras… cabe ela inteira, mais na sua que na minha.

Lembro-me ainda do dia que você foi embora pela última vez. Como quem sai pra comprar o azeite que falta pro almoço, saiu da mesa sorrindo, deixando todos conversando ali, e se dirigiu em direção a porta dos fundos. Os que ficaram se entreolharam silenciosos, porque sabiam que vez ou outra tinha dessa mania de deixar um vazio surgir do nada deixando em todos o vácuo. Eu não te segui porque você sempre deu passos mais largos que os meus e eu sempre fiquei muito cansada de sempre ter que correr, mas algo me diz que você andou pela calçada xingando mentalmente os carros que não paravam na faixa de pedestre, o barrigudo careca que embaixo do sol quente fazia propaganda da agência de carros para qual trabalhava, onde compram toda essa paciência? a paciência das pessoas com uma vida chata. Dos tempos em que julgava ser preso, essas coisas não faziam tanto estardalhaço. Agora, qualquer coisa que ameaçasse sua liberdade era dita como Feia.

Como naquele bar em que recusou um olhar de afeto de quem encontra um amor passado – não quis saber de memórias, não quis saber como ela andava, se conseguiu realizar ou não todos os seus sonhos não era problema e nem curiosidade sua. Recusava palavras de quem pedia pra entrar com passos calmos e olhares curiosos daquela curiosidade-de-alma, que só quem quem te amou muito e sofreu muito com por isso sabe ter. Como se evitar amor fosse evitar vida. Como se evitar amor fosse evitar liberdade. Mas não sabia que liberdade imposta é pior que cela de ferro, é pior que querer correr e ter as pernas debilitadas…

O dia ia passando e nada de você voltar. Quando começaram a ficar preocupados, tentei acalmá-los dizendo que você estaria de volta em duas semanas ou três. Como uma criança que acredita que apontar estrelas no céu faz nascer verrugas, você viria de uma cidade de estrangeiros e semi conhecidos, contando sobre histórias vividas mais na sua cabeça que na sua frente… e eu ouviria todas como criança que ouve histórias antes de dormir. Eu ouviria todas fingindo que você realmente precisaria ir tão longe buscá-las, e até te oferecia dinheiro pra ajudar nas próximas passagens. Te indicaria os melhores bares com as melhores cachaças… na próxima viagem eu posso ir? perguntaria mesmo sabendo que não.

E teu coração continuaria a não amolecer com os meus olhos tão atentos a você, e eu continuaria com o meu sangrando em mãos, com um amor novinho em folha dentro que você não pegou só porque não quis. Tentaria acalmá-lo com essas mesmas mãos que brigam entre si pra não tocar a sua pele e não entrar no trago do seu cigarro enquanto ouço essas histórias chatas…

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Entre becos e barbas

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imenso é o mar
imenso é amar,
o resto em mim
é respeito
muito sem jeito
caminhando em areia fofa. 

(thiê)

Que vontade de te ligar agora e dizer que esse Rio de Janeiro é a sua cara, e que mesmo você sendo chato e herege dizendo que “não gosta muito da cidade e sim das pessoas”, ainda acho que cê devia vir pra cá passar uns dias, sozinho. Aí você me diria que lógico-que-eu-iria-ao-Rio-te-ver mas eu diria não, primeiro vem sozinho. Te daria um mapa feito à mão, desenharia com lápis de cor os lugares e trajetos que eu queria que você conhecesse e só depois de ter certeza que você sentiu tudo isso que eu tô sentindo nesse exato momento em que eu tô aqui, deitada nesse apartamento na Lapa tentando dormir, mas preferindo ouvir a conversa de um pessoal rindo aqui embaixo, eu te encontraria por entre essas esquinas cheias de barbudos. Não porque eu gosto de barbas, mas porque a sua nunca cresce e assim seria mais fácil te reconhecer.

Foi quando eu lembrei que eu já não tenho aquela intimidade de poder ser espontânea assim com você. Se eu não posso mais ser eu mesma, o que mais posso ser? Fiz mal em não ligar? Afinal, que parte de mim ainda tem guardada aí? Vai saber. E isso doeu, raparigo, doeu mesmo. Porque é ruim saber que você sempre vai estar entre todas as coisas boas que me acontece na vida – acontece, mesmo, presente do indicativo, porque ainda sinto você por aí, principalmente em lugares bonitos como esse aqui – enquanto eu vou estar só nesse suspiro de lamento aí que você solta sempre que se frustra em não descobrir do que é feito o samba. E posso te dizer? Aqui você descobriria. Mas quando essa raiva, tristeza, incômodo, indecisão, orgulho, seja-lá-o-que-for passar – e por favorzinho, toma um remédio pra passar logo – , aproveita e passa aqui também. Pega carona na cauda de vento dessa coisa besta e salta aqui. O apartamento é 605, sexto andar. E traz cerveja.

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Que borbulha, deixa marcas.

 

Toda essa gente estranha me seguindo nas calçadas, nos bares, nos supermercados, me olhando esquisito como se o que eu tivesse feito ontem fosse algo desumano, mas são eles que escondem essa humanidade que eu não ligo de deixar transparente no meu peito. Saí da casa dele pensando minha-mãe-vai-me-matar-a-condição-de-eu-dormir-fora-era-chegar-às-onze-da-manhã-e-já-são-quase-duas-da-tarde, mas o seu sorriso logo de manhã e essa cara de sono compensa o esporro, vai ser proteção, cê vai ver. Entrei na primeira padaria com a ideia de aparecer com pães pra ela ver que eu me importo e que não sou uma filha desapegada, quem sabe assim eu aproveito e faço um café e a gente conversa sobre coisas da vida, da sua adolescência que eu não sei, você nunca me contou, por que, mãe? Devia ser danada, aposto, todo mundo que tem o olho verde é meio danado e tem um monstro calmo dentro do peito. E aí quem sabe se você me contasse eu contaria também sobre coisas que eu não conto nunca porque você não dá espaço, mas com o café assim passado na hora as coisas fluiriam, quem sabe? Eu contaria que adoro fazer sexo, sabia que eu não sou virgem há muito tempo? E que também adoro beber, inclusive foi eu quem bebeu a vodca que o tio esqueceu aqui outro dia e não tem nada demais uma mocinha da minha idade beber isso é coisa que colocaram na sua cabeça e que fumar eu também fumo, mas nisso eu maneiro por causa do pai que já morreu por conta do cigarro e eu não pretendo morrer por causa disso também porque eu sei que você não aguentaria outro tranco desses. Cê tá vendo como eu tenho um coração enorme? Aí eu comprei o pão e o moço da padaria falou “Você tá radiante hoje.” eu achei graça “São seus olhos, seu Pedro.” e continuei seguindo. O portão de casa tava fechado ainda, achei estranho, será que você ainda tava dormindo às duas e meia da tarde de um domingo? Não, porque você acorda cedo mas eu entrei e você tava dormindo mesmo, aí te olhei assim pelo cantinho da porta do quarto, você é tão linda, mãe. Fui pra cozinha fazer o café forte e doce do jeito que você gosta, fiz bastante barulho com as panelas pra ver se você acordava e você acordou mesmo “É você?” Sim Cheguei Mãe Eu Perdi A Hora Mas Eu Juro Que Da Próxima Vez Chego Cedo É Que Eu Não Ouvi O Despertador Tocar. “Tudo bem, o almoço tá na panela, tem bolo na geladeira.” mas eu não quero almoço tô fazendo um café pra gente mas até que com bolo cairia bem e quando eu abri a geladeira tinha um bolo de aniversário enorme escrito seu-nome-37-anos de glacê. Fiquei ali parada, idiota, pensando em frente a geladeira que hoje era dois de Janeiro e porra como eu pude me esquecer do seu aniversário? A água do café ferveu demais, molhou o fogão todo, fui tentar limpar e espirrou nos meus braços, queimou, doeu muito, fui pro banheiro lavar com água fria e quando te vi cê tava chorando, mãe, e seu choro doía mais que a água quente nos meus braços. Perdoa.

 

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