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Não mudaria meu jeito de fazer café por você

Deixe em paz meu coração

Que ele é um pote até aqui de mágoa

(Chico Buarque)

– Quer ser o amor da minha vida? 

E foi assim, ali, embaixo daquela marquise da padaria da esquina, os pingos da chuva fazendo uma orquestra com o asfalto. Era madrugada, não tinha nada aberto na rua. Pensei que ao chegar em casa fosse simplesmente deitar na cama sem pensar em nada e deitaria assim mesmo, molhado da chuva, porque o cansaço não me deixaria secar por inteiro, estava exausto quando veio o pedido.

Ela: a jaqueta de couro protegendo seu vestido estampado de laços. Seu rosto começara a ficar vermelho, sua boca tremia, nos olhos brilhava um suave desespero. Aquilo era uma lágrima querendo cair? Podia ser só gota-da-chuva-que-desceu-passou-nas-sobrancelhas-e-se-apoiou-nos-cílios, talvez. Olhava pra chuva tentando fazer a pergunta que saiu num impulso voltar. Devia ser uma daquelas frases que ficam dias e dias na boca, brigando com os dentes até se pendurarem na ponta da língua, balançarem pra lá e pra cá e caírem – bem logo na minha mão.

Quer ser o amor da minha vida?”, eu repetia na minha mente. Ninguém pede assim pra ser o amor da vida de alguém. A gente pede em namoro, pede desculpas, pede pra amar, para ser amado. Ser o amor da vida dela era amar e ser amado ao mesmo tempo mas deixar que ela me amasse primeiro? Não sei, esse tipo de pergunta eu não entendo. Nunca entendi.

Virou a cabeça pro lado e olhava a chuva que caía. Acendi um cigarro e tentei fazer com que minha fumaça cobrisse a neblina do momento.

Vamos? – Ignorei a pergunta, o pedido, o desespero. Ela deu um sorriso leve como quem diz “Obrigada por acabar com esse momento constrangedor”, mas mal sabia que para mim era pior. E seguimos embaixo da chuva. Quando chegamos no nosso apartamento, tomei um banho quente e ao sair, ela me esperava na cama enrolada na toalha, folheando um livro, a TV ligada baixinho.

– Você não se sente sozinho?

– Claro, quem não? 

– E isso não te incomoda? 

– Incomoda. Mas a gente, como se diz… pega a solidão e dança.

– Isso não é engraçado.

– O que não é engraçado?

– Essa sensação de que todo mundo anda em igual sintonia prendendo o mesmo grito de angústia no peito.

Sim, eu sei. Às vezes eu tenho vontade de puxar o grito, quem sabe todo mundo grita junto. Sei que iriam me achar estranho no início, mas entre becos e bares por aí um ou outro fodido iria gritar comigo, nem que fosse mentalmente.

– Tenho andado com um incômodo enorme nos últimos dias. O que sinto é que tudo que me rodeia é meio fake, meio forçado, como se eu precisasse de algo mais seguro pra me sentir à vontade entre esses destroços que eu piso constantemente, todo dia, toda hora. 

(Silêncio.)

– Eu preciso de segurança… – continuou ela.

– Você tem. O teu emprego, a tua faculdade. Teu pai tem uma grana legal.

– Tô falando de gente. Tô falando da gente.

– Olha, Céu… Eu não quero te magoar com minha preguiça nas pessoas, mas pra isso é essencial que você entenda que eu preciso do meu espaço… 

– Então você tem preguiça de mim?

– Tenho, mas eu te amo, então eu amenizo pro seu lado.

– Eu me sinto solitária.

– Eu já disse que eu também.

– Então?

– Então o quê?

– Solidão a dois, é isso?

– Pelo visto sim.

– Solidão a dois é…

Eu sei, ela começaria a falar que essa rotina mata a gente por dentro. Que eu ando sem paciência nos últimos dias. Que ela se sente sufocada, eu concordaria, diria que eu também me sinto assim. Talvez abafaríamos o sufoco num abraço apertado ou deixaríamos ele escapar como uma poça de água que evapora na calçada, depois de muita gente molhar o pé ali. Talvez se eu contasse que compro presentes escondido pra ela mas fico sem jeito de entregar por medo de que ela perceba o quanto sou apaixonado a tristeza dela passaria um pouco. Na cômoda tem um livro e um DVD do Chico que eu comprei no Natal passado, será que eu deveria…

– … desespero. – completei.

Demos um sorriso triste e ficamos calados. Ia começar um filme do Tarantino na TV.

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Entre becos e barbas

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imenso é o mar
imenso é amar,
o resto em mim
é respeito
muito sem jeito
caminhando em areia fofa. 

(thiê)

Que vontade de te ligar agora e dizer que esse Rio de Janeiro é a sua cara, e que mesmo você sendo chato e herege dizendo que “não gosta muito da cidade e sim das pessoas”, ainda acho que cê devia vir pra cá passar uns dias, sozinho. Aí você me diria que lógico-que-eu-iria-ao-Rio-te-ver mas eu diria não, primeiro vem sozinho. Te daria um mapa feito à mão, desenharia com lápis de cor os lugares e trajetos que eu queria que você conhecesse e só depois de ter certeza que você sentiu tudo isso que eu tô sentindo nesse exato momento em que eu tô aqui, deitada nesse apartamento na Lapa tentando dormir, mas preferindo ouvir a conversa de um pessoal rindo aqui embaixo, eu te encontraria por entre essas esquinas cheias de barbudos. Não porque eu gosto de barbas, mas porque a sua nunca cresce e assim seria mais fácil te reconhecer.

Foi quando eu lembrei que eu já não tenho aquela intimidade de poder ser espontânea assim com você. Se eu não posso mais ser eu mesma, o que mais posso ser? Fiz mal em não ligar? Afinal, que parte de mim ainda tem guardada aí? Vai saber. E isso doeu, raparigo, doeu mesmo. Porque é ruim saber que você sempre vai estar entre todas as coisas boas que me acontece na vida – acontece, mesmo, presente do indicativo, porque ainda sinto você por aí, principalmente em lugares bonitos como esse aqui – enquanto eu vou estar só nesse suspiro de lamento aí que você solta sempre que se frustra em não descobrir do que é feito o samba. E posso te dizer? Aqui você descobriria. Mas quando essa raiva, tristeza, incômodo, indecisão, orgulho, seja-lá-o-que-for passar – e por favorzinho, toma um remédio pra passar logo – , aproveita e passa aqui também. Pega carona na cauda de vento dessa coisa besta e salta aqui. O apartamento é 605, sexto andar. E traz cerveja.

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