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água viva

tu me deixou com antipatia e tristeza
pelo mar
e eu me pergunto
que tipo de pessoa
consegue fazer dele
algo tão indesejável

apaguem todas as fotos
que o retratem
tirem os filmes
e quadros
da minha frente

peça pro motorista
fazer o caminho
de volta pra casa
entre asfalto, carros
e avenidas

porque eu não quero
passar nessa areia
eu sequer aguento
sentir essa brisa salgada
sem querer vomitar

tudo aquilo de você

que ficou engasgado
na garganta,
grudado nos cabelos
e na pele
como um cheio podre
impregnado num tecido
 
todas as angústias
que por anos silenciei
que por anos fingi
não estarem ali
que por anos me fizeram
ser a louca de nós dois
 
afinal sempre tem alguém
pra ser o louco da história

guardei a loucura
na garganta
esperando a chance de vomitá-la
bem verde, ácida e fedorenta
na primeira sarjeta
daquela rua que eu nunca mais
vou passar

e junto com ela
foi todo o alfabeto
que você transformou
em palavras esdrúxulas
e cheias de clichê,
cheias de significado
que você não queria dizer

cheias de mentiras
que só uma boa
faculdade direito
saberia ensinar a
revertê-las na mais
absoluta verdade

pensando bem,
passa pela praia sim.

 

 

 

 

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III – pele

[II – cheiro]

a minha saudade
tem nome, sobrenome
e endereço.
deixou minhas mãos com alergia
e hoje nem no bolso
eu carrego mais.

a minha saudade tem
cor, sexo e textura.
qualquer beijo
não basta pra ser
toque
e qualquer pele
não supre a vontade
de findar unhas nas palmas
até sangrar.

a minha saudade
pegou um ônibus
pra uma cidade que
eu não conheço
a rota, as horas e nem

se volta

pra pegar o eco dela
que fica fazendo
sombra
na luz amarela
do meu quarto
às uma e pouca
da madrugada.

a minha saudade é
como aquela sensação
de amputar um membro
do corpo por pura
e espontânea vontade
e sentir falta dele
mesmo assim.

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(des)conforto

você finge que
nada aconteceu
e eu finjo que
nada aconteceu
e de fato
nada aconteceu
porque nem lembro mais
do que a gente
não tava falando.

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II – cheiro

[I – olhos]

por culpa sua
lidei com alguns
emaranhados de
pensamentos tortos
desde a última vez
que eu senti o cheiro
do seu condicionador
pra quem tem
vertigem de suicídio,
acho que escalo bem
os teus muros altos
cheios de farpas.
só não passou
aquele tremer-pernas
diante do elevador
que não chega nunca
no segundo andar
e a vontade de
te ver de novo,
outra vez,
amanhã.

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sobre seus freios

pego todos os
seus restos
de um ontem
e deixo contigo
nas tuas fronteiras

não aceito mais
suas curvas
de gente
blindada
assim como
também não quero
suas flores
de plástico
sobre a mesa
da minha sala

não há som no rádio
não há gota pingando
na pia no silêncio
de um domingo

qualquer resquício de lar
já não mora mais aqui

e eu também não.

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I – olhos

eram duas nuvens
pretas
e brilhantes
que refletiam
o desejo
escondido
em mim
eram duas bolas
que se mostravam
tão serenas
que todo relógio
parava no
piscar
dessas duas bolas
mágicas
mirando
o meu
amor
teu

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ish

dia desses encontrei
o fio estourado
do seu ukulele
e me veio aquela rotina
fora de hora
de cafés da tarde, patês
e algo que
até hoje
nem deus decifrou
o que era.

estourou na casa
um silêncio,
desses que tem um grito
tão contínuo
que qualquer parada
é incômodo

não lembrava nossa música,
nem o barulho do seu carro
às seis,
muito menos
som de passarinho.

só sei que o calei de novo
como se nada
tivesse acontecido,

pela quarta
ou quinta vez.

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